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Não bebo leite de vaca

Não bebo leite de vaca. Não por não gostar, mas por me causar enxaquecas. Sou alérgico, talvez. Por um bom tempo fiquei só no café, até voltar ao antigo deleite. Só que de cabra.

Voltei ao prazer de sorver, devagarzinho, o café com leite quentinho da manhã. [Pausa para tomar um gole.] Adivinhou. Escrevo enquanto bebo meu leite quente numa manhã fria, antes que o dia acorde. Meu momento individual de secreto prazer, bebericando minha fórmula exclusiva no canto da caneca. Caneca tem canto?

A minha tem. Ganhei num estande da Continental Airlines* em um evento da HSM Management e não larguei. Ela tem borda enquadradada, com um biquinho perto do cabo. Uma sensação que é um misto de mamar na vaca com beber do bico do bule. Uso leite de cabra em pó fabricado na Bélgica e embalado com a marca Scabra numa lata que avisa que vai se chamar Caprilat. [Pausa para tomar outro gole.]

Café com leite seria de mentirinha sem um bom café. O meu é solúvel, mais cremoso. O nome no vidro preto e azul é longo: Iguaçu Premium Freeze Dried Liofilizado – processo de comida de astronauta. [Outra pausa, outro gole.] Uma colherinha de açúcar mascavo e algumas gotas de Melville, mel com própolis da Superbom, formam a pitada exótica do sabor. [Último um gole]

Terminei meu café com leite, mas não meu assunto. Pegue seu café e venha comigo para a Rússia da primeira metade do século vinte. Vamos visitar Nikolai Kondratieff, criador das ondas que o levaram à morte pelas mãos de Stalin, que enxergou na teoria uma apologia ao capitalismo. Ao observar o comportamento sócio-econômico, cultural e tecnológico do mundo, Kondratieff percebeu um padrão cíclico, explorado por outros estudiosos após sua morte.

Sopre devagar a superfície de seu café e você verá uma série de ondas como as que Kondratieff quis mostrar. Uma começou em 1800, quando o vapor costurou a indústria têxtil. Seu impacto nas pessoas foi no vestir. Cinqüenta anos depois, as estradas de ferro massificaram o transporte em massa. Começamos a viajar. [Enquanto você toma seu café.]

O século virou e a onda do consumo de uma indústria movida com eletricidade nos alcançou. Enquanto eu nascia, a indústria automotiva transformava a mobilidade individual em essencial e o século terminaria com a tecnologia criando uma aldeia global de informação, conhecimento e capital intelectual. Bom negócio? Pergunte às escolas e faculdades, que não param de abrir.

E o negócio futuro? Calma, tome mais um gole. É de cabra? Quentinho e cremoso? O que vem depois é assim. Café com leite. De cabra, cremoso, mascavo, liofilizado, individualizado com própolis e mel, degustado do canto de uma caneca exclusivamente enquadradada. Entramos na onda do bem-estar, da saúde, das academias, das trilhas ecológicas, do ironman e da ironwoman. Estamos em Atenas.

É a era da individualização exacerbada, da sociedade casulo, na qual cada um quer ser o Matrix gerador de seu Neo particular. Com sua mezinha individual e poção de deleite, composição de marcas e sabores para uma experiência só minha, cremosa e quentinha. Bebericada no canto de minha redoma enquadradada, hermética e segura, da qual me relaciono com um mundo conectado à minha caneca.

Você também deve ter sua receita particular. Nem que seja de brincadeira – é café com leite. Ajuda a extravasar seu estilo próprio, sua marca, seu blend. Pode usar o mel com própolis, o solúvel liofilizado, o leite de cabra e a caneca de borda enquadradada, tudo igual e da mesma marca, mas seja original ao menos na temperatura. Ou no bolso.

Falo das reuniões em que todos trazem aquele olhinho de asterisco branco espiando do bolso da camisa. Todos têm Montblanc. Não preciso ser caro para ser original. Para cada reunião uso uma caneta distinta e saio do lugar comum. Tenho várias, de diferentes hotéis, feiras e promoções. Posso escrever, perder e esquecer, não faz mal. Todas Bic, mas cada uma original, diferente, inesperada. Não bebo leite de vaca.

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