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Carreiras mutantes

O que você diria de um jovem que deseja fazer uma faculdade na área de tecnologia da informação, uma especialização em marketing, e tentar a sorte na China? Perfeitamente normal se esse jovem não fosse eu.

Não sou jovem, mas já fui, e naquela época teria sido insano pensar em um plano de carreira assim. Estudar tecnologia da informação? Como, se o único computador conhecido era o HAL de "2001 Uma odisseia no espaço"? Na minha juventude não havia Internet, e os computadores só se comunicavam entre si enviando cartões perfurados pelo correio.

Especialização em marketing? Eu teria perguntado se era marca de cigarro americano. Um autor brasileiro da época batizou isso de "mercancia". Pouco antes Philip Kotler lançara seu livro "Administração de Marketing", mas ninguém ficou sabendo. Ele e o marketing ainda não eram famosos.

Trabalhar na China? Bem, na década de 70, em pleno regime militar, a simples menção disso teria mudado radicalmente minha carreira. Teria dado direito a uma bolsa de estudos no DOI-CODI com aulas práticas de tortura chinesa em mim.

Você já deve ter percebido que teria sido impossível eu fazer um plano de carreira que previsse as mudanças radicais que iriam ocorrer no prazo de minha vida profissional. Tudo bem que foram precisos 20 ou 30 anos para essas mudanças acontecerem, mas a que velocidade as mudanças trafegam hoje? Como um profissional vai ser capaz de mirar uma carreira em um futuro que não para de se mexer?

Ter uma meta de carreira hoje é como escalar um Everest que cresce todos os dias e cujo pico não está mais lá quando você pensa que chegou. Você escolhe uma profissão de grandes possibilidades, faz 4 ou 5 anos de faculdade e, quando sai, descobre que já não existe mercado para sua atividade, ou a profissão agora só é encontrada em parques temáticos.

Quem gosta de estabilidade deve estar passando o maior sufoco. Espero que você não seja dessas pessoas de olho na aposentadoria para terminar seus dias como revestimento de sofá. O sofá você ainda alcança, a aposentadoria não. Flexibilidade, iniciativa e disposição para correr riscos são qualidades vitais para uma carreira de sucesso no mercado atual.

O próprio ambiente de trabalho muda rapidamente. Em um mercado global você precisa estar preparado para interagir com uma diversidade cada vez maior de línguas, culturas e até gerações. Com o aumento dos recursos tecnológicos que permitem usar mais o cérebro do que os músculos e da expectativa de vida - de minha adolescência até aqui ela cresceu 20 anos - é comum encontrar adolescentes e anciãos trabalhando lado a lado.

O adolescente aprendendo o valor da sabedoria que vem da experiência. O ancião aprendendo a não bater no coleguinha se for chamado de "animal". Na gíria dele é um elogio. Se você, independente da idade, está começando ou já começou a escalar o monte da carreira perene, aqui vão alguns itens que não podem faltar em sua mochila:
  • Um par de tênis marca "Aprendizado Contínuo", para você saber onde pisa, de preferência com sola personalizada, para que outros possam identificar suas pegadas e seguir seus passos. Líderes são seguidos.

  • Um cantil cheio de "Disposição Tecnológica" para você aprender a apreciar o sabor da tecnologia, não importa o quanto ela mudar durante a viagem. Beba com moderação, pois nem sempre a mais quente é a melhor.

  • Cem metros de corda marca "Networking", para você permanecer conectado aos seus companheiros de viagem. Nas escaladas mais perigosas você poderá precisar deles para não despencar no abismo do desemprego.

  • Uma mochila contendo "Maestria", "Experiência", "Conhecimento", "Talento" e outros itens para atender as necessidades das pessoas que encontrar. Não se esqueça de colocar nela um zíper da marca "Generosidade" para ficar fácil de abrir.

  • Um boné marca "Criatividade" vai deixá-lo de cabeça fresca. Se eu fosse você, usaria no avesso, com a aba para o lado, para trás, ou de qualquer modo que não seja o usual.

  • Suas roupas, meias, cinto, desodorante e filtro solar devem ser da grife "Marketing Pessoal". De que adianta você sair por aí todo equipado se ninguém ficar sabendo disso?

  • Finalmente, não se esqueça de levar um canivete marca "Empreendedorismo" aberto na lâmina "Inovação". E lembre-se de mantê-la lubrificada com algumas gotas de óleo de "Proatividade".


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    Emprego de A a Z
    MAX GEHRINGER
    Escolher a faculdade. Conseguir o primeiro emprego. Acumular cursos de especialização. Comprovar produtividade. Driblar as intrigas. Até ? chegado o dia ? criar coragem e pedir de maneira firme e direta aumento para o chefe. Se a resposta for uma sonora gargalhada, ainda não é hora de desanimar. Mas sim de ler a mais recente obra de Max Gehringer, Emprego de A a Z, que a Editora Globo acaba de colocar nas livrarias.
    O livro foi inspirado na série de televisão para o Fantástico, que conquistou o público pela linguagem precisa e sem maneirismos e pelo humor. Os acessos ao site do programa o tornaram recordistas entre os quadros apresentados por especialistas no programa. Foram 250 mil em um único dia.
    Gehringer mostra que entende mais do que de empresas. Entende de gente. E sabe identificar, com um olhar curioso, quase de antropólogo, os tipos humanos e as relações cotidianas das corporações.
    O leitor certamente vai reconhecer os personagens. Seja o sincero Ricardo ou o burocrático Botelho. Há Ricardos e Botelhos em todas as empresas, afinal de contas. E também os chefes que à maneira bíblica se comunicam por parábolas misteriosas. Sem contar os colegas que conseguem criticar dando a impressão que estão elogiando.
    O texto de Max Gehringer, no entanto, não perde em precisão e argúcia por montar esse quadro bem-humorado. Como diz o próprio autor, rir é fundamental, mas na hora certa. Isso significa que o leitor vai encontrar informações úteis para situações bastante práticas, como a maneira correta de crirar um currículo, quando e como escolher os cursos que pretende fazer, qual a hora de mudar de empresa ou mesmo de atividade.
    Emprego de A a Z é organizado no formato de um dicionário, no qual os temas vão surgindo pela ordem alfabética. Os tópicos vão de assédio moral e aumento até vaga e vítima. Passando pelas letras "b" de bonzinho e "p" de puxa-saco. Em cada uma delas a análise do autor vai direto ao ponto, com a experiência de quem teve toda uma vida voltada a entender o mundo corporativo por dentro.








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    E a gorjeta, doutor?

    Um comentário:

    1. Legal... Muito criativo, gostei das ilustrações finais.

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