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Medicina mutante

Stan Lee, criador do Incrível Hulk, Homem de Ferro, Thor e X-Men, conta que sempre foi zero à esquerda em ciência. Por isso quando queria explicar como um herói tinha surgido pegava a primeira palavra que vinha à mente -- raios cósmicos, radioatividade ou coisa do gênero -- e isso era imediatamente aceito como plausível pelos fiéis leitores dos quadrinhos. Foi o que fez para explicar as aberrações dos heróis e vilões de X-Men. São mutantes.

Stan Lee podia não entender de ciência, mas sabia ler o comportamento humano. Não é à toa que o herói que ajudou a criar -- o Homem Aranha -- é o estereótipo perfeito do adolescente: inseguro, oprimido, recluso, mas dono de um mundo interior tão imenso que só viajando pendurado em fios de teia de aranha para conseguir estar em todos os lugares. Para salvar a mocinha indefesa, evidentemente.

Levante a mão quem já sonhou em salvar uma mocinha indefesa. E se for mulher, quem já arrepiou só de pensar em ser envolta num abraço forte e seguro. É por isso que tantas meninas se apaixonam pelo professor ou até se casam com quem tem idade para ser seu pai. Nas redes sociais você sempre encontra comunidades do tipo "Adoro homens mais velhos". Para elas, homens mais velhos cheiram a estabilidade, segurança e proteção. Além de mofo, dependendo da idade.

(Poster: © Marvel Characters, Inc. / © Sony Pictures Digital Inc.)

Mas elas são também capazes de desafiar essa estabilidade quando a intuição fala mais alto, e foi o que alavancou a carreira de Stan Lee. Ao perceber a frustração do marido por ter de se sujeitar ao estilo imposto por seus editores, sua mulher o aconselhou a escrever do jeito que gostaria, mesmo que isso lhe custasse o emprego. A Wikipedia conta o que aconteceu:

"Lee deu a seus novos super-heróis sentimentos mais humanos... tinham um temperamento ruim, ficavam melancólicos, cometiam erros humanos normais. Preocupavam-se em pagar suas contas e impressionar suas namoradas, e às vezes ficavam até doentes fisicamente. Os super-heróis de Lee capturaram a imaginação dos adolescentes e jovens adultos, e as vendas aumentaram drasticamente".

Entender comportamentos faz bem para a saúde de qualquer profissão. Em um encontro para médicos, expus minha tese de que a percepção que o público tem da medicina é mutante e hoje não é a cura que as pessoas procuram. No passado era, mas hoje cura é commodity. Pelo menos na cabeça da nova geração, que acredita ser fácil curar qualquer coisa.

Esta geração viu o Luke Skywalker, de Star Wars, ganhar uma mão biônica para substituir a que fora cortada por Dart Vader, acha que é só apertar as teclas certas para ganhar vidas extras e aprende medicina no Fantástico que, no domingo à noite, sempre revela a última descoberta milagrosa dos cientistas. Se na TV mostraram uma orelha humana sendo desenvolvida nas costas de um rato, o que impede que façam o mesmo com corações, cérebros e intestinos? É só arranjar um rato maior. Ele até acredita que a criogenia que vê nas viagens espaciais da ficção seja realidade. Só não entende por que não consegue achar na seção de embalagens para congelados um saco plástico do tamanho da sogra.

Se perguntar ele vai negar, mas esta é a percepção que o cliente atual tem da medicina. Para ele, cura é commodity e medicamento, para ser bom, tem de ser azul. Se no início do século passado as manchetes alardeavam os recém descobertos antibióticos, as manchetes deste século promovem os medicamentos que turbinam o prazer. A nova geração é hedonista por natureza.

Você duvida? Quando eu era menino, herói era o Dr. Barnard, do primeiro transplante de coração. Saiu até uma edição especial da revista Manchete, só com fotos sanguinolentas, e todo mundo comprou. Quem é a estrela da medicina hoje? Dr. 90210. Não, não se trata do número de um dos Irmãos Metralha, mas de uma série de TV que começou com o cirurgião plástico brasileiro Dr. Roberto Rey esculpindo beldades em Beverly Hills. Enquanto os médicos correm atrás de curar doenças, o que as pessoas buscam mesmo é a imortalidade estética.

Não que esse comportamento tenha mudado, mas é que a tecnologia conseguiu realizar alguns sonhos antigos e cirurgia plástica é um deles. No passado mulheres ricas contratavam os melhores cirurgiões plásticos de sua época -- os grandes mestres da pintura -- para pintá-las nuas. Não como elas realmente eram, mas como gostariam de ser. Antes mesmo de Santos Dumont, já tinha gente capaz de transformar canhão em avião.

"La Maja Desnuda" e "La Maja Vestida". No século 19 na Europa era comum ter dois quadros para serem usados no mesmo lugar, dependendo de quem viesse visitar.
O bisturi era o pincel e o silicone a tinta. Era comum encomendar também uma versão vestida do mesmo quadro, para trocar caso o bispo viesse visitar. Algumas eram representadas como deusas gregas apenas para justificar sua nudez pública.

Em minha opinião, a conversa no ateliê do passado, não devia ser muito diferente daquilo que se escuta hoje nas clínicas por aí:

"Quantos mililitros de tinta a senhora deseja nos seios? Se quiser, dou uma pincelada aqui, outra ali e... Presto! Lifting! Oh! A tinta escorreu um pouco aqui... não tem problema. É só passar a lipo."

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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