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Propaganda quase enganosa

Quando vi na Internet o site do hotel que a empresa que me contratou reservou para mim, fiquei animado. Com a previsão de ficar cinco dias no lugar, já podia me enxergar ali, largado à beira da piscina, a dois passos da praia, e comendo metade das espécies de peixes e crustáceos do Atlântico ao som do pipocar do gás da cerveja. Não foi bem assim.


Se visitar o site de um hotel na Internet, desconfie. Com a lente correta e algum conhecimento de Photoshop, qualquer garoto é capaz de transformar a marginal paulistana do Rio Tietê em avenida beira-mar. É o que chamo de propaganda quase enganosa. A realidade é mesmo aquela, só que distorcida pela lente do artista.

Nunca me esqueço do evento de uma semana em um hotel em Salvador que a empresa que eu atendia contratou pela Internet. No site, a sala de convenções parecia o estádio do Maracanã, graças às fotos com lente olho-de-peixe. Uma vez lá, foi difícil manter naquela lata as cento e poucas sardinhas participantes durante uma semana de evento.

No caso do hotel de onde escrevo, só descobri que era uma pousada quando cheguei aqui. Algumas pousadas são organismos vivos, que nascem de uma pequena casa e crescem graças ao transplante de cômodos e casas vizinhas. Tenho um palpite de que daqui a cem anos esta será comparada a uma obra de Gaudí, como o templo da "Sagrada Família" de Barcelona, tamanha a variedade de ladrilhos, pisos e azulejos.

O site da pousada criou em mim a falsa impressão de que ficaria hospedado em uma vila no Mediterrâneo, com as ondas batendo sob a janela de um quarto com vista para o mar. Tudo o que consigo ver são quintais e cachorros que não param de latir. No site havia uma foto do hotel bem ao lado dos iates de uma marina local. Os feios quarteirões que separam uma coisa da outra não saíram na foto.

No apartamento tudo é improvisado, até os quadros. Assim que entrei fui tomado por um sentimento de nostalgia e imediatamente me lembrei dos natais dos tempos de criança. Não, não são quadros de paisagens natalinas, mas apenas pedaços de papel de presente emoldurados. Você deve conhecer, desses que mostram instrumentos de navegação, cachimbos, bússolas, mapas antigos e coisas do tipo.

Há vantagens, porém. Eu quase não sinto o cheiro de esgoto que sai da pia e dos ralos do banheiro, graças à naftalina. As bolinhas estão em toda parte - no armário, sob a cama e, obviamente, no ralo. Meu medo é sair daqui viciado e a família me internar em uma clínica de desintoxicação. "They tried to make me go to rehab but I said 'no, no, no'".

Itacuruçá, a cidadezinha litorânea onde estou, é minúscula, mas não se iluda achando que isso seja sinônimo de tranqüilidade. Um trem de minério atravessa o lugar a poucas quadras do hotel, e tantas quantas são as ruas que os trilhos cortam, tantos são os apitos que ele dá de dia e de noite. Principalmente de noite.

Mas é claro que o trem não passa o tempo todo. Nos intervalos entra o som dos candidatos a vereador, pois minha viagem coincide com a campanha eleitoral. Como a cidade é pequenininha, e só escuto um candidato de cada vez, acredito que os carros tenham combinado sair como fazem nos sambódromos, um a um, para evitar misturar as propagandas. Ou então a cidade só tem um carro de som para preencher as lacunas entre os apitos do trem e cada hora apita um candidato no alto-falante.

O hotel não serve refeições, por isso comi um peixe no primeiro lugar que encontrei. Minha impressão é que aquele peixe era reincidente e tinha sido frito duas vezes ou mais. No alto falante do restaurante, onde só tinha eu, o Roberto cantava "Eu voltei, agora pra ficar...". Eu sei que existe uma campanha para não comermos peixes em extinção, mas será que ela inclui os extintos? Começo a achar que esse peixe vai voltar à noite para me assombrar.

Minha preocupação com o peixe se agravou quando voltei à pousada e decidi procurar na Internet informações sobre a cidadezinha. Sabe como é, não vi nada de interessante, mas pode ser que eu tenha perdido alguma coisa ao atravessar o lugar em cinco minutos caminhando a passos lentos.Encontrei um site de informações turísticas que falava das duas ou três atrações do lugar:

"Quando estiver na cidade, escolha um dos muitos quiosques instalados no cais para petiscar um peixinho frito. Para fazer a digestão, visite a igrejinha de Nossa Senhora..."

É, definitivamente vou ter problemas com o peixe.

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E a gorjeta, doutor?

5 comentários:

  1. "Começo a achar que esse peixe vai voltar à noite para me assombrar." kkkkk
    Com tudo isso, levante as mãos para o alto e dê graças por ter encontrado sinal de internet!!! kkk

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  2. Não sei se rio ou se choro...
    ABs
    Georges

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  3. Ah, isso sempre acontece comigo. Meu mal é que sempre escolho o hotel pelas fotos encantada com as piscinas. Da última vez a piscina era uma banheira de fibra de vidro cheia de larvas de mosquito.

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  4. Anônimo6/6/11

    imagino o quanto foi ruim para vc, moro em ngra e conheço a cidade de itacuruçá. pequena e sem nehuma atração. mas também lhe digo que nunca conheci ou li algo tao sarcástico. vc fala com tanto propriedade que me senti vivendo o seu drama pessoal. parabéns adoreiiii

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  5. Eu desenvolvo artes gráficas, material publicitário e me recuso a montar fotos com coisas que não existem. O máximo que faço em certos casos é melhorar as cores e luminosidade das fotos se elas não podem ser feitas novamente (muitas vezes eu mesmo tiro as fotos já pensando no resultado final) É enorme a quantidade de clientes que desejam mágica com photoshop quando seria mais verdadeiro fazer na realidade o que pedem no photoshop em muitos casos. Quanto a má localização, maus serviços seria melhor encontrar soluções eficientes para resolver o problema ou minimizar e não prometer o que não vão entregar. É como comprar um bolo que em baixo da cobertura não é bolo, é massa de pão caseiro (já aconteceu comigo)

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