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Independencia e Sorte

Gosto de ensinar. É gratificante poder dar algo a alguém. Principalmente conhecimento, que você não subtrai quando divide, mas soma e multiplica. Hoje ensino marketing para universitários. Mas já lecionei de tudo um pouco numa escola secundária. Foi há mais de trinta anos, quando eu era professor voluntário no mais interior dos interiores, muito além das Gerais dos Inconfidentes.



Eu era um dos quatro únicos professores com formação superior numa cidade onde o quinto diplomado era o Tiradentes local. O título que lhe cabia bem em meio às tantas cavidades daquela descalcificada população. Tamanha era a independência de dentes proclamada pelas bocas adultas, que até algumas dentaduras sorriam as vagas de dentes postiços que não quiseram participar do "Dia do Fico".

Juntamente com minha esposa e um casal de jornalistas, éramos os estrangeiros do lugar; jovens empreendedores e idealistas, segundo o nosso julgar. Irresponsáveis e inconseqüentes, no julgar de nossos pais e parentes. A verdade é que não medíamos esforços nem riscos e nem ligávamos para as convenções e obrigações, como organizar aquele desfile do 7 de Setembro. Um feriado que só com extrema criatividade ficaria prolongado.

Empreendedorismo rima com idealismo. São coisas parecidas. Talvez você diga que o ideal do empreendedor seja mais mesquinho, obter lucro a qualquer custo. Será? Se o lucro fosse a meta, muitos teriam parado no primeiro milhão. Idealista e empreendedor buscam independência para empreender e sonhar. A meta não passa de um botão que aciona a satisfação.

Independência e sorte é o ideal do empreendedor. Liberdade, ainda que tarde, o empreendimento do idealista. Mas ambos querem desembainhar e brandir seu próprio rumo, decidir como trabalhar, o que produzir e quando parar. Parecem buscar uma nova fronteira para ser atravessada, e não como ponto de parada. Para eles, alvo é como balde: se chegar perto, chutam para mais longe.

Enquanto muitas empresas dizem estimular o colaborador empreendedor, a prática da teoria é outra, mais ao estilo de Frederick Taylor, pai do gerenciamento científico. Ele sugeria que o trabalho cerebral fosse banido do ambiente de produção e deixado para gerentes. Operários não eram pagos para pensar, mas para produzir. O grito característico desta doutrina é "Lucratividade ou morte" para quem estiver ao alcance da lâmina. No vácuo moral da antiga administração só cabem números, para preencher o vácuo moral da antiga administração. Pessoas são reles vassalos que existem para servir cegamente à coroa.

Mas há empresas descobrindo que valorizar gente é bom negócio. E não estou falando aqui da valorização do cliente, pois todos já estamos cansados de saber que o cliente está em primeiro lugar. Mas... cá entre nós, está? É claro que não. Os interesses dos acionistas estão em primeiro lugar. Se não acredita, pergunte ao Papai Noel. Na prática, o acionista vem primeiro, depois o cliente e, por último, o funcionário. Aquele que a empresa espera que seja algum dia um empreendedor. Trazido por uma cegonha.

E se alguém alterar esta ordem? Tirar do trono o acionista e colocar o funcionário lá? Será que ele viraria empreendedor? Sendo valorizado, talvez trabalhe melhor. Com liberdade para criar, pode ousar sem medo de errar, e se trabalhar satisfeito, sua satisfação pode contaminar o cliente que, por sua vez, dará mais lucro para o acionista. Que rirá por último e melhor.

Esqueça. Acho que estou delirando. Ninguém produz mais se for valorizado, nem fica mais criativo se lhe dão espaço. Uma liberdade assim levaria o funcionário a pensar fora dos limites conhecidos, um verdadeiro desastre e um ultraje para os padrões, normas e convenções estabelecidas. Ou não?

Ultrajante mesmo foi a solução que nós professores mambembes da pequeníssima cidade de interior encontramos para visitar nossos familiares a mais de mil quilômetros de rodagem, sem privar a população do feriado e desfile de 7 de Setembro. Marchamos com a fanfarra da escola até nossa Kombi, estrategicamente estacionada numa bifurcação. Dali o desfile seguiu para a direita. E nós seguimos o coração.

Por sorte aquela independência não acabou em morte para nossas carreiras, quando ouvimos da delegada estadual de ensino um brado mais bravo que o do Ipiranga. Para ela aqueles jovens inconsequentes e seu desejo de viajar os tinha levado longe demais quando conseguiram convencer uma cidade inteira a antecipar o 7 de Setembro para o dia 4 de Setembro. Culpa do desejo de liberdade, ainda que cedo.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


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E a gorjeta, doutor?

2 comentários:

  1. Eu acredito que a valorização do funcionário traga novos acionistas a partir do cliente interno.

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  2. Anônimo8/9/12

    E eu quero ganhar comissão no faturamento desta crônica!!!!!!

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