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O Terminal ou o dia em que me senti Tom Hanks

Não encontrei título melhor para esta crônica do que “Terminal”. Mas não é sobre a condição de quem já se aproxima dos sessenta anos e ainda não conseguiu um “refil”, mas de Terminal mesmo, aquele lugar onde você embarca ou desembarca. No caso específico desta minha experiência, eu, que não sabia como se sentia um artista de Hollywood, acabei descobrindo. Um título alternativo seria “O dia em que me senti Tom Hanks”, numa alusão ao filme com o ator cujo personagem morava em um Terminal de aeroporto. Como vivo no Terceiro Mundo, no meu caso o terminal  não é de aeroporto, mas de rodoviária.


O relógio no painel do carro marcava 11:05 da manhã enquanto eu estacionava no segundo estacionamento do Terminal Rodoviário de Campinas. O primeiro estacionamento, mais próximo do Terminal, estava lotado. Vi que a quase totalidade de suas vagas era reservada a idosos e deficientes, e sua total ocupação me faz acreditar que estamos vivendo em um país com uma superpopulação de idosos e uma epidemia de deficiência física. Uma preocupação a mais para a Previdência e para a saúde pública.

Eu tinha planejado buscar o casal de amigos vindos dos Estados Unidos no próprio aeroporto em que desembarcariam em Guarulhos. Mas para isso teria de sair de casa antes do nascer do sol, e mesmo assim correndo o risco de topar com alguma manifestação bloqueando a pista para reivindicar a liberação dos pedágios. Aposto como os manifestantes não estariam dispostos a liberar minha passagem, nem pagando.

O e-mail que recebi do amigo que vinha me visitar com a esposa dizia: “My flight arrives at GRU 8:25 A.M. July 18 on Delta flight 105... Last year I took that bus to Campinas, so that would be no problem”. Caso você ainda esteja na lição do “the book is on the table”, vou dar uma colher de chá. Ele avisou que o voo chegaria no Aeroporto de Guarulhos às 8:25 da manhã do dia 18 de julho pela Delta, e que no ano anterior ele já havia utilizado o serviço de ônibus que ia do aeroporto de Cumbica ao Terminal Rodoviário de Campinas. Portanto não seria problema se eu os encontrasse em Campinas, ao invés de me deslocar até Guarulhos.

Decido não almoçar, para reservar a fome para um almoço com meus amigos, enquanto aguardo no Terminal envolto pelos muitos aromas que saem dos fogões, chapas e fornos da praça de alimentação. Meu estômago ronca como um ônibus vazio suplicando por passageiros, mas procuro me controlar e bebo água, muita água, sabendo que no final do dia estarei cheirando a desinfetante de banheiro ou coisa pior. Pelos meus cálculos eles deveriam chegar por volta do horário do almoço. Já estou no horário da janta, e cheguei aqui após o café da manhã. Ônibus após ônibus eu observo a fila dos passageiros que desembarcam, na esperança de ver um rosto conhecido. Nada.

Trouxe meu iPhone e o tablet Androide, este para continuar lendo o livro que só agora descubro ter começado a ler em meu Kindle que ficou em casa. Escolho outro livro e me acomodo num banco sem saber quanto tempo me espera para eu esperar. Apenas o iPhone tem conexão com a Internet, mas sua bateria está por um fio e eu não trouxe o carregador. E se meu amigo me ligar para avisar de algum imprevisto? Lembro-me do filme em que o mocinho não conseguiu salvar a mocinha só porque a bateria do celular acabou na metade da ligação. Saio logo em busca de uma lojinha de bugigangas, dessas que vendem de carregador de celular a dentadura seminova, e compro aquilo que buscava. Um carregador.

Um Terminal, seja ele aéreo ou rodoviário, possui uma fauna e uma flora de dar água na boca a um cronista como eu. Sinto-me como Darwin, observando pela primeira vez as ilhas Galápagos. É claro que as conclusões de um cronista são tão equivocadas quanto as de um Darwin de primeira viagem, mas não deixam de entreter uma mente imaginativa. Você precisaria perder o tempo que estou perdendo aqui se eu fosse descrever todas as coisas estranhas que são projetadas nesta tela de 360 graus do cinema da vida, mas vou poupá-lo falando apenas de alguns dos espécimes mais canoros e coloridos.

Não estou em meio apenas a uma fauna e flora exuberante; contemplo uma exposição de arte itinerante. Ao menos a arte tatuada nas pernas da moça que passa por mim é assim. Será que ao tatuar a perna toda ela queria que eu olhasse para suas... tatuagens? O rapaz que passa em seguida, de camiseta regata, parece querer justificar o que gastou com o tatuador. Estamos em Julho, faz um frio de lascar e a arte alheia que enfeita sua pele está toda arrepiada. Admiro sua coragem e logo minha mente empreendedora vislumbra um negócio. Por que os tatuadores não fazem uma venda casada? A tatuagem mais uma malha cor de pele tatuada no mesmo padrão para desfilar em dias frios.

Minha atenção é desviada pelo casal que passa apressado, ele na frente, apanhando, ela atrás batendo e gritando. Será que o homem olhou para a tatuagem nas pernas da moça ou para as pernas da moça tatuada? Não sei. Penso em como sua viagem está sendo difícil tendo de carregar aquela mala atrás de si. A música não me deixa pensar muito no assunto, pois volta e meia volto para seus acordes.

Não falei da música? Falo agora. Existe um piano aberto na praça de alimentação do Terminal Rodoviário de Campinas, e seu som é agridoce. Ora fonte de prazer, ora de desgosto para quem espera. Prazer porque às vezes se senta ali uma virtuose anônima que faz até os ônibus saírem atrasados. Mas as notas maviosas de seu tocar ainda ressoam em meus ouvidos quando o banquinho é invadido por um funkeiro que pensa que piano é pandeiro. Aí os ônibus saem apressados, antes do horário.

A tarde começa a virar noite e já ouvi dois concertistas e três que faziam conserto. Decido ir embora. Não tenho um número sequer de telefone para me comunicar com meu amigo e saber o que aconteceu. Só agora me lembro de tentar enviar um e-mail pelo iPhone, duvidando que ele seja capaz de responder em trânsito. Mas ele responde de pronto: “Sorry, me enganei e enviei a você a data da partida. Estamos embarcando agora. Chegaremos amanhã no horário programado”.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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Um comentário:

  1. Eu no seu lugar teria tido um ataque de risos!!!!!

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