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Eu matei Tiradentes

Eu matei Tiradentes. Mas não leve isso como uma confissão tardia, por medo ou covardia. Não fui eu quem o prendeu, condenou ou deu o nó no laço. Eu só fabriquei a corda, por sinal, de primeiríssima qualidade.

Não há como se eximir. O dinheiro que corre pelas veias do progresso é o mesmo que passa pelos intestinos do mundo. Ele chega ao seu bolso como algo que você pensa ter conseguido honestamente, com o suor do seu rosto. Não é só com suor que ele chega lá, mas com sangue também.

Estamos tão interligados a tudo e a todos, que precisa ser muito ingênuo para acreditar em um mundo cor-de-rosa, quando o assunto é dinheiro. No mundo dos negócios, a pimenta de um é o refresco do outro. Um advogado disse algo que nunca mais esqueci: "Se não aparecer um litígio eu não troco de carro".

A menos que você viva numa caverna no Himalaia, você também é responsável por manter a ciranda do comércio. Sabe aquele seu dinheirinho aplicado em um fundo de previdência? Parte de sua aposentadoria poderá vir da munição usada em alguma guerra. Armamento sempre foi um bom negócio, e os investidores sabem disso.

Até onde dá, a gente tenta evitar uma participação direta. Eu, por exemplo, não faço palestras para companhias de cigarro, mas com isso elimino apenas o elo da cadeia que está mais perto de minha consciência. Lá na frente eu atendo fabricantes de papel e máquinas de embalar, e quem você acha que compra deles após eu treinar seus vendedores?

Não adianta querer escapar. Você nem faz idéia por onde passa o vil metal de papel. De 135 cédulas coletadas ao acaso e analisadas em laboratório, apenas 4 não tinham traços de cocaína. Não sei com quem você está de mãos dadas, mas tenho certeza de que participa da ciranda. Ainda que pague com cartão.

Assim como todos os rios correm para o mar, todos acabamos navegando nas mesmas águas. Portanto, antes de achar que você não tem nada a ver com a morte de Tiradentes, observe o movimento de sua loja no Dia das Mães. Se na véspera o noticiário esquartejar Joaquim José da Silva Xavier, pode apostar na venda de mais geladeiras.

Por mais mórbido que possa soar, ainda vigora a velha máxima do jornalismo norte-americano: "If it bleeds, it leads", ou se sangrar, dá audiência.

Mais sangue, mais jornais vendidos, mais telejornais assistidos, mais anúncios e comerciais distribuídos. No final do mês o vendedor pode até achar que foi a palestra de vendas do Mario Persona que o ajudou a faturar mais, mas o crédito mesmo é de Tiradentes. Foi o seu sangue que atraiu os clientes à loja.

Quando não há sangue suficiente, dá-se um jeito. Quando em 1895 William Hearst, criador de um império jornalístico, enviou o artista Frederic Remington para fazer ilustrações de uma rebelião em Cuba, este telegrafou para Hearst: "TUDO CALMO. NÃO HAVERÁ GUERRA".

De Nova Iorque, Hearst respondeu: "FIQUE AÍ. VOCÊ CUIDA DE FAZER AS ILUSTRAÇÕES E EU CUIDO DE FAZER A GUERRA".

É difícil provar que tenha sido a imprensa que acendeu o fogo da guerra hispano-americana, mas as ilustrações de Remington publicadas no jornal de Hearst certamente serviram de lenha. Uma delas mostrava uma mulher nua, cercada pelos três soldados espanhóis que a despiram, sob a manchete:

"ESPANHÓIS REVISTAM MULHERES EM NAVIOS DOS ESTADOS UNIDOS".

É claro que algum jornalista recém-formado e idealista irá dizer que essas coisas não acontecem, e ainda aproveitar para me mandar plantar batatas. Posso até ir e fazer bons negócios vendendo para quem fornece marmitas para presidiários. Moral da história? Quanto mais bandidos, mais batatas eu vendo.

Não dá para escapar. Você comprou álcool gel para não pegar a gripe? Até o temido Aedes aegypti se transformou no mais recente promotor de vendas da indústria de inseticidas, que cresceu 170% em comparação ao mesmo período do ano anterior ao do pânico. Já viu algum usineiro preocupado com a crise do petróleo? E pode ter certeza de que você não irá encontrar um fabricante de retrovisores reclamando dos motoboys.

Sugestão de vídeo: Corra até a locadora e pegue "A Montanha dos Sete Abutres", de 1951, com Kirk Douglas. Se não encontrar é provável que encontre em algum curso de comunicação.

Se você acha que estou exagerando, veja o spam que recebi dois dias depois de publicar esta crônica:


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O Príncipe
NICOLAU MAQUIAVEL
O príncipe é um livro que não sai de moda. Mais do que um best-seller, ele é um clássico. Surgem novas edições e grandes estadistas encontram nesta obra suas virtudes literárias e estratégicas. Silvio Berlusconi, presidente do Conselho de Ministros da República italiana, apresentava assim esta obra, ao dá-la como presente de Natal para amigos e colaboradores em 1992: "O Príncipe é o primeiro clássico do pensamento político moderno, referência durante gerações para estadistas e diplomatas. A obra foi concebida como um conjunto de reflexões do autor sobre a arte de conquistar e conservar o poder em um principado."




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E a gorjeta, doutor?

3 comentários:

  1. Gostei dos seus textos, muito inteligentes e irônicos!
    Natália

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  2. Você é um grande exemplo para nós, futuros administradores! Estamos acompanhando seu Blog!
    Abraços

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  3. Você tem uma grande visão da coisa mesmo. Gostei dos seus textos e vídeos. Acompanharei para saber mais.

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