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Ambidestros cerebrais

Nosso planeta é habitado por três tipos de pessoas: canhotos, destros e ambidestros. A classificação é feita segundo o uso das mãos ou dos pés. Quem gosta de futebol reconhece logo se o jogador é canhoto, destro ou ambidestro, só pelo modo de chutar.

O problema e' seu

Gostei tanto do YouTube que estou adorando brincar de TV. Até comprei uma câmera digital para substituir a velha VHS, além de outra, pequenininha assim, só para levar em viagens e filmar ideias. Sinto-me nos tempos do Autorama. Não conhece? Era um videogame de corrida de carro que a gente jogava quando ainda não existia videogame.

Velho e bom atendimento

O PROCON na Babilônia tratava com rigor os oftalmologistas que falhassem no atendimento ao cliente. Aparentemente o código de defesa do consumidor vigente lá não era na base do "olho por olho", e sim do "olho por mão". 

"Se um médico trata alguém de uma grave ferida com a lanceta de bronze e o mata ou lhe abre uma incisão com a lanceta de bronze e o olho fica perdido, se lhe deverão cortar as mãos", escreveu Hamurabi há 3.700 anos.

Todo oftalmologista sabe que não deve cobrar o olho da cara, pois na melhor das hipóteses só ganhará duas vezes. O deus nórdico Odin foi quem inventou a expressão, ao pagar um olho por um gole de sabedoria do poço de Mimir. A partir daí ele passou a perguntar de antemão o preço das consultas.

Mas o que nem todo oftalmologista sabe é que talvez precise procurar uma fonoaudióloga. Você sabia que o tom de voz de um cirurgião durante as consultas de rotina pode determinar se ele será processado ou não em caso de erro médico? Esta é a conclusão de um estudo denominado "Surgeons' tone of voice: A clue to malpractice history", publicado em 2002 na revista "Surgery".

E não é só a entonação que pode entornar um atendimento. Ao ministrar um treinamento para profissionais de saúde descobri que havia quase um consenso entre os participantes daquilo que gostamos e odiamos em um atendimento ao cliente. A coisa é tão antiga que até Hamurabi já sabia.

A genial crônica de Max Gehringer em um de seus programas na Rádio CBN revela que muita novidade tem milênios de idade. Max começa dando dicas supostamente de um guru moderno e termina revelando que elas foram tiradas do livro de Eclesiastes, na Bíblia. O mesmo que diz que "o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: 'Veja! Isto é novo!'? Não! Já existiu há muito tempo; bem antes da nossa época" (Ec 1:9, 10).

Até o iPad? Sim, mesmo o iPad. Quero dizer, pelo menos o conceito do tablete já era usado na antiga Babilônia. A diferença é que os tabletes de então eram de argila, a escrita era cuneiforme e para salvar o que escreveu você precisava levar ao forno. Mas não precisava de bateria. O que Steve Jobs fez foi transformar isso numa experiência moderna de satisfação.

Hoje, sem saber que eu viajaria no tempo, decidi pesquisar um bom filtro de água para minha cozinha. Fui parar no www.metaefficient.com, um site que se intitula "Guia Para Coisas Altamente Eficientes". Seus autores fazem testes para determinar os produtos mais eficientes em termos de energia, toxidez, custo-benefício e durabilidade.

Qual você acha que foi o filtro eficiente que o site sugeriu? Um filtro de argila da marca "Stefani" fabricado no Brasil.

Fui excepcionalmente atendido numa loja onde fui comprar o filtro. Em questão de segundos a vendedora digitou meus dados, emitiu o pedido e indicou para eu pagar no caixa. Enquanto ela me atendia, os outros vendedores pareciam passar em câmera lenta. Mas depois de um bom atendimento veio o gargalo no pagamento para mostrar que não basta um elo ser eficiente. O que importa é toda a corrente.

Havia duas filas. A fila que tinha só uma senhora aguardando era para aposentados e gestantes, e a senhora estava mais para a primeira categoria do que para a segunda, enquanto eu não me qualificava em nenhuma delas. Só me restava pegar a outra fila. Num sincronismo perfeito, um dos cantores da dupla "Victor e Léo" - não me pergunte qual - que cantava em um mega-show na TV de 42 polegadas ao lado, adivinhou meus pensamentos.

O Victor - ou o Léo, não me pergunte - fez uma pausa e, olhando para a platéia, exclamou: "Nossa! Quanta gente!" Parecia até que ele podia enxergar a fila que eu estava para pegar.

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Uma luta pela vida
Lia Persona


Em uma "Luta pela Vida" Lia Persona compartilha suas emoções e memórias como irmã e enfermeira de seu irmão adotivo portador de paralisia cerebral. A autora intercala seu passado com seu presente; história com realidade; a luta de seu irmão pela vida, com a luta de seus pacientes por suas vidas.

Concorrendo com mais de 650 obras inscritas, esse romance baseado em fatos reais, foi vencedor do Concurso Literário Anjos de Branco e escolhido por uma comissão formada pelos escritores Antonio Olinto, José Louzeiro e Arnaldo Niskier da Academia Brasileira de Letras. A primeira edição de "Uma Luta pela Vida" foi publicada como parte da Coleção Anjos de Branco que inclui os autores Antonio Olinto, José Louzeiro, Helena Parente Cunha, Carlos Nejar, Arnaldo Niskier, Marcos Santarrita, Patch Adams e Maureen Mylander.
Lia persona é enfermeira formada pela Unicamp e atualmente reside com seu marido e seu filho nos Estados Unidos.
Editoras: Clube de Autores, Createspace e AGBook
Ano: 2010
Edição: 2
Número de páginas: 220
Acabamento: Brochura
Formato: Médio




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E a gorjeta, doutor?

Meu carro sumiu!

Não ligo para carro, não leio revista especializada e não sou apaixonado pelo meu. É claro que ele facilita minha vida e passo horas sentado ali, mas seria isso motivo para paixão? Meu vaso sanitário também facilita minha vida, passo horas sentado ali, e até gosto de ler quando estou nele. Mas não revistas sobre privadas.

Eu achava que esse desinteresse por carros fosse coisa só minha, mas tem mais gente assim. Há alguns meses, na busca por um carro novo, o vendedor de uma concessionária ficou surpreso quando não me interessei em fazer um test-drive. Tinha rodas, portanto devia andar. Dispensei até a abertura do capô. Eu tinha certeza que o motor estava lá. Tem gente que pede para abrir, mas se colocarem ali um aspirador de pó a maioria não vai notar a diferença.

O vendedor contou que profissionais de criação, publicitários e artistas são assim, costumam não ligar para motor, câmbio, transmissão... Concentram-se no projeto, na funcionalidade e no conjunto estético da obra. Bem, o vendedor não falou bonito assim, eu inventei. Mas foi o que ele quis dizer.

Fazia sentido, pois saí dali sem comprar aquele modelo por falha no projeto. Os retrovisores externos eram grandes e fixos. Não escamoteavam, só quebravam, e no planeta onde habito há uma espécie chamada motoboy.

Apesar de não ligar para carro, meu coração disparou quando o manobrista do hotel anunciou com cara de espanto: 

- Senhor, seu carro sumiu! 

Escutar isso a 300 quilômetros de casa não é o que um cliente espera. No meu caso, nem tanto pelo carro, mas pelo tempo que iria perder com polícia, seguradora e acidez estomacal. As recepcionistas me encaravam petrificadas. Pareciam esperar pela minha explosão, como é normal quando o hotel deixa roubarem seu carro.

Resisti. Sou do tipo que acredita que tudo tem uma razão de ser. Estaria eu sendo poupado de algum acidente? Seria aquilo para eu aprender a ser paciente? Ou só para ter assunto para esta crônica? Não sei.
Também resisti à tentação de comentar o problema com as pessoas ao redor, como muitos adoram fazer. Já passou por isso? O cara se vira para você na fila e repete tudo o que você ouviu ele dizer para a balconista. Ele espera que você faça cara de simpatizante, como se isso fosse resolver alguma coisa.

Isso acontece no intervalo, quando a balconista desaparece dizendo que vai chamar a pessoa responsável. Pura técnica para esvaziar fígados. O cara vai contar a mesma história duzentas vezes, e cada balconista vai chamar outra até ele ficar afônico.

Por isso aguardei em silêncio. Teria o meu carro sido roubado na frente do hotel na noite anterior? Era possível. Cheguei tarde e entreguei a chave no balcão. Ou foi surrupiado da garagem? Era o que tentavam descobrir, mas erraram ao me envolver na busca.

O cliente não precisa saber o que acontece nos bastidores. Já pensou um restaurante com transmissão direta da cozinha? "Senhora, neste momento estamos lavando a alface de sua salada. Já providenciamos a remoção das lesmas e lagartas. A salada aguarda apenas o Zezinho voltar do banheiro para ser montada..." 

Em minhas palestras, me tranqüiliza saber que o público não conhece os detalhes de minha apresentação. Portanto nunca vai saber se eu esqueci de dizer algo, se o tempo não deu para falar tudo, ou se vesti a cueca no avesso. Eles não sabem, eu não digo.

Bastidores são lugares reservados para os problemas. O cliente jamais deve ser levado ali. O que importa é o que acontece no palco. E no palco eu era interrogado mais uma vez: 

- Marca do carro? 
- Peugeot.
- Cor?
- Prata 

- Placa? 
- Cinza com letras pretas.

Achando que aquilo seria a solução para o problema, o manobrista levou-me até a garagem para que eu não visse o carro com meus próprios olhos.

Realmente não estava lá, mas não precisava ter me levado. Como também não precisava dizer que meu carro tinha sumido. O atendimento devia guardar silêncio sobre o problema até serem esgotadas todas as possibilidades de solução.

Mais tarde, enquanto dirigia meu carro de volta para casa, fiquei ponderando sobre o assunto. O silêncio é uma ferramenta poderosa. No atendimento pode evitar entornar o caldo que ainda não está no ponto. Na oratória ele é usado na forma de pausas para realçar o que está sendo dito. Numa crônica como esta, cria um suspense e deixa o leitor morrendo de vontade de saber onde estava meu carro.


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O Excepcional Atendimento ao Cliente
LISA FORD, DAVID MCNAIR, BILL PERRY


O livro O Excepcional Atendimento ao Cliente é ferramenta essencial para profissionais que desejem criar um serviço de atendimento que realmente exceda as expectativas dos clientes. Combinando a vasta experiência acumulada, os autores do livro ajudarão os leitores a proporcionar o melhor serviço de atendimento aos clientes de suas organizações. Ao ler o livro O Excepcional Atendimento ao Cliente os leitores saberão como:
. construir uma forte equipe de atendimento
. utilizar a tecnologia para melhorar o atendimento aos clientes
. realizar planejamento eficaz
. buscar o feedback dos clientes
. lidar com clientes exigentes
. recuperar clientes desapontados
. abordar assuntos delicados com o cliente
. realizar atendimento telefônico eficaz
. manter canais de comunicação com os clientes
. tornar-se bom ouvinte
. superar as expectativas dos clientes
. transmitir as primeiras e as últimas impressões positivas aos clientes
. manter atitudes positivas durante todo o dia
. usar palavras adequadas para cobrir falhas do sistema de atendimento
. medir a satisfação dos clientes
. capacitar profissionais para tomarem decisões imediatas
. recrutar e contratar atendentes
. treinar os profissionais de atendimento

Trata-se de avançado e completo guia, contendo dezenas de casos, situações de atendimento, depoimentos, dados estatísticos sobre atendimento a clientes, além de exercícios individuais e em grupo, que farão a sua empresa exceder no serviço de atendimento aos clientes.



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E a gorjeta, doutor?

Encantamento

O apito do navio é de tirar o fôlego. Forte, grave, resoluto. Um momento mágico. Ser embalado por aquele gigante de aço, enquanto a cidade encolhe no horizonte, traz um misto de fragilidade e poder. Sou um príncipe e o conto de fadas agora é aqui. Será que aquilo ali é um sapatinho de cristal? A fantasia está só começando.

Cercados de espelhos e cortesias, os passageiros se sentem contemplados com uma dignidade que a vida diária costuma lhes negar. Desdobram-se em mesuras nos corredores e elevadores, todos limpos, lindos e polidos, como o corrimão dourado das escadas que levam aos andares-surpresa daquele palácio.

O ambiente tem um papel essencial no encantamento, seja num navio, shopping ou botequim. Mas qualidade, eficiência e perfeição não bastam. Enquanto o botequim fica cheio de gente que precisa escolher o lado limpo do copo, o barzinho chique fica vazio. Ambiente não é soma de características, é conjunção.

Coloque duas mil pessoas confinadas num navio, com uma decoração de um luxo que beira a breguice, e você satisfaz um espectro que vai do chinelão ao cromo alemão. Entuche comida às arrobas, esconda a balança e crie danças comandadas, e uma legião de glutões dormentes e obedientes vão sorrir contentes. O que essa conjunção tem a ver com você? Tudo.

Alimente bem seu cliente e você terá um exemplar dócil à sua frente. De pedidos de noivado a jantares de negócios, o encantamento à mesa quebra a resistência, a bebida amortece e a sobremesa dociliza na hora de acatar a proposta. Só não coma mais do que o outro, ou o dócil será você.

A equipe também é importante no encantamento. No navio, os cargos culinários têm sotaque italiano, as dançarinas soam argentinas e as mesas são servidas por gentis orientais. Experimente trocar por britânicos, alemães e franceses, nesta ordem, para ver se funciona. Enquanto isso, os passageiros são assados no deck ao som de Ivete Sangalo, porque ritmo é importante.

O ritmo embala e seduz, e não é à toa que uso o truque das três palavras em meus textos. "Forte, grave e resoluto". Todos nós temos um relógio interno e funcionamos melhor com ritmo, tanto para estimular como para ninar.

Shakespeare escrevia no compasso do coração. As rimas trissilábicas do primeiro livro infantil do Dr. Seuss foram escritas no porão de um navio no ritmo dos pistões. Roberto Menescal tentava dar partida num barquinho à deriva na Baía de Guanabara e o motor só fazia "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá..." e morria. Enquanto era rebocado para a praia, Menescal transformava aquele "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá" na melodia de "Di-a-de-luz... fes-ta-de-sol..."

Recapitulando: Um misto de fragilidade, para se deixar levar, e poderio para achar que está levando. Uma dignidade real que a vida costuma negar. Uma conjunção de fatores que satisfaça um amplo espectro de desejos. Deleite físico e mental para desarmar e docilizar. Serviços com os sotaques que os clientes esperam que tenham. E ritmo, muito ritmo, trazendo todos sob a batuta de um maestro invisível.

A cena muda...

Estou agora em um salão enorme. Duas mil pessoas com suas malas desembarcadas se digladiam para sair por uma porta estreita. A sensação é de pasta de dente. Esqueço a pasta quando sinto o bafo quente e barulhento do cais. Logo adiante uma mulher agarra o companheiro pelo colarinho e senta a mão em sua cara. Será que pegou o marido com a mala da outra?

Depois de morar na fila do táxi, chega a vez do casal à minha frente bater boca com o taxista que cobra preço fixo e não vai pelo taxímetro. Quem passou uma semana tomando cerveja em dólar, agora discute por uma diferença do tamanho de uma latinha. Pego o táxi que o casal recusou e pergunto ao motorista se aquela balbúrdia no desembarque é normal.

-- O senhor não viu nada. Semana passada duas mulheres saíram no tapa por causa de um lugar na fila. Coisa feia, de arrancar cabelo e pele na unha. Foi preciso apartar.

Enquanto o carro dribla o trânsito para escapar do cais, olho para trás. O navio não está mais lá. Em seu lugar há uma imensa abóbora. A fantasia acabou. O sapato de cristal desapareceu de minhas mãos.

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Se Disney Administrasse Seu Hospital: 9 1/2 Coisas que Você Mudaria - Fred Lee
Livro obrigatório para quem trabalha com serviços. Fred Lee reuniu sua experiência como executivo em hospitais e uma passagem pelas organizações Disney para mostrar que o atendimento atencioso e singular gera lealdade e admiração pelas empresas capazes de prestá-lo.
Editora: Artmed
Autor: FRED LEE
ISBN: 9788577803705
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 212
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



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E a gorjeta, doutor?

Aerosafari

Estou num dilema. Minha passagem aérea diz "Apresente-se em nosso check-in com 1 hora de antecedência" e nem imagino quando é isso. Nunca sei, e olha que tenho viajado um bocado. Se reclamo dos atrasos? Sim e não.

Se o atraso me fizer perder um compromisso, é claro que vou odiar. Felizmente até hoje só tive um ou dois "quase". Fora isso, minha opção pelo humor -- sim, é uma opção que mais gente deveria fazer -- me ajuda a desfrutar das longas estadias aeroviárias. Aprendi a relaxar, o que não é muito, mas já representa 50% das atividades sugeridas pelo Ministério do Turismo para quem viaja de avião.

Aproveito para ler, escrever, cortar o cabelo, engraxar os sapatos, assistir TV, tomar café, almoçar ou jantar, às vezes tudo no mesmo dia. Mas nenhuma dessas atividades se compara ao aerosafari. Não tem gente que se embrenha nas florestas para observar a vida selvagem? Eu faço isso nos aeroportos.

É inacreditável quanta coisa esquisita você vê ali. Com a invenção do celular, então, a coisa ficou ainda mais pitoresca. Se estiver numa sala de espera em um dos primeiros vôos da manhã para alguma capital, esqueça ler ou fazer palavras cruzadas. A falação é demais.

Sinto-me numa Bolsa de Valores. Outro dia tinha um chinês caminhando de um lado para o outro berrando sempre as mesmas coisas, cada vez mais alto. Não sei mandarim, mas deduzi que seu interlocutor também não devia saber.

Nunca entendi por que os homens telefonam andando e as mulheres sentadas. Alguns só conseguem falar de olhos fechados, desenhando no chão com a ponta do pé ou gesticulando para explicar tamanhos e formatos das coisas. Para quem costuma falar com as mãos já existe a opção do celular auricular. Ótimo também para quem costuma falar sozinho e quer disfarçar.

Conversas truncadas aqui e ali servem para eu brincar de quebra-cabeça mental. Como elas nunca têm fim nem começo, sinto-me assistindo a um filme "cult", desses que todo mundo se esforça para fazer cara de quem entendeu.

Mas não é só na espera que dá para relaxar. O embarque também tem seu lado pitoresco. Após um dia inteiro esperando um embarque que só veio à noite, entrei no avião atrás de uma mulher estourando de grávida. Pela tensão do vestido calculei que seu vôo devia estar atrasado desde o segundo ou terceiro mês. Não resisti perguntar à comissária, que sorria na porta:

-- Se nascer agora ela precisa voltar ao guichê e comprar mais uma passagem?

Em outro vôo arrepiei com o despreparo do funcionário. Entrou correndo na cabine com uma mochila na mão, anunciando:

-- Alguém esqueceu na sala de embarque?

Ninguém. Se fosse a bomba que os avisos nos aeroportos dizem para a gente não mexer, eu teria visto uma versão moderna do Cavalo de Tróia. Minha última visão.

Não basta decolar para a diversão acabar. Divirto-me com os sotaques e expressões de gente de todas as cores, línguas e sabores viajando naquela panela de pressão cultural. Outro dia ouvi um passageiro responder a outro, que perguntou de sua bagagem:

-- Amigo, do jeito que as coisas estão difíceis, minha mala é um saco e o cadeado é um nó!

Mas nem todas as expressões têm graça. Antes de atingirmos a altitude de cruzeiro, o comandante escolheu uma expressão das mais infelizes para anunciar isso:

-- Nossa altitude no momento é de 30 mil pés e dentro de alguns minutos estaremos batendo nos 36 mil.

Geralmente não me preocupo com a possibilidade de acidente ou pane no avião, pois ainda é o meio de transporte mais seguro que existe, quando existe. Meu receio fica guardado para o táxi da última etapa da viagem. Mas confesso que uma vez fiquei preocupado sim.

Foi em uma escala em Brasília, onde embarcou um jovem que chamou minha atenção. Não pude deixar de pensar no pior, mesmo sabendo que o mais provável era que ele estivesse a caminho de alguma competição. Parado no corredor ao meu lado, afastou algumas maletas no bagageiro para caber sua mochila, e virou de costas para mim para tirá-la. Foi quando percebi que aquilo não era mochila. Era um pára-quedas.



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E a gorjeta, doutor?

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