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Mulheres de visão na "Casa de Papel"

Quando visitei "La Casa de Papel" brasileira, a "Casa da Moeda" no Rio, não fui lá com a intenção de roubar, como no seriado da Netflix, e nem máscara levei, apesar de meu sobrenome "Persona" vir de "uma palavra italiana derivada do Latim para um tipo de máscara feita para ressoar com a voz do ator ('per sonare' sigifica 'soar através de'), permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores, bem como para dar ao ator a aparência que o papel exigia. A palavra latina era derivada da palavra etrusca 'phersu', com o mesmo significado, e seu significado no último período Romano foi alterado para indicar um 'personagem' de uma performance teatral." (Obrigado Wikipedia!).
Moeda do Reino Unido comemorativa dos 400 anos de Shakespeare.

Eu estava na "Casa da Moeda" para fazer uma série de palestras para os colaboradores, em troca obviamente do principal produto fabricado por aquela empresa. Entre uma palestra e outra me levaram para conhecer o interessantíssimo museu, a história da instituição, e também as instalações. A visita a essa parte foi feita caminhando por uma passarela fechada por vidro no alto da fábrica, já que é proibido entrar na área de produção do dinheiro.

Foi um passeio bem instrutivo, mas quando meu guia pediu se eu tinha alguma cédula de Reais na carteira, fiquei preocupado. O cara vivia no meio do dinheiro, literalmente caminhando sobre milhões de reais, e ia pedir logo do meu? Na hora pensei naqueles mágicos que pegam dinheiro de alguém na plateia e para colocar fogo na cédula e ela depois surgir intacta dentro de uma caixa trancada. Naquela hora pensei em perguntar: "Serve a gravata?".

Uma vez meu cunhado foi se consultar com um médico que tinha por hobby fazer mágicas para reduzir o estresse dos pacientes. Ele pediu a meu cunhado uma nota de dez reais, o que só serviu para aumentar seu estresse, mas ele deu de boa vontade, por achar que a consulta estava saindo mais barato do que pensava. Não era desconto, o médico só queria fazer a nota desaparecer diante de seus olhos para depois fazê-la surgir exatamente igual e com o mesmo valor. Na minha opinião um péssimo investimento.

Enquanto caminhávamos pela passarela elevada da "Casa da Moeda" meu guia usava minha nota para mostrar os diferentes dispositivos de segurança existentes nela, como fiapos coloridos misturados à massa da matéria prima do papel, símbolos só visíveis com luz ultravioleta, e a perfeição da impressão, que permite que, dobrando a cédula, você consiga fazer um desenho continuar na aba oposta com total precisão.

Eu só tinha brincado de dobrar notas quando era garoto, e fazia isso com uma nota de 5 Cruzeiros, a famosa "Nota do Índio". Acho que foi a primeira impressa pela "Casa da Moeda" em 1961 (antes eram feitas na Inglaterra), e todo garoto tinha uma bem guardada em sua carteira. A brincadeira era perguntar "Quer ver o índio fumar cachimbo?" ou "Quer ver o índio soprar língua de sogra?", dependendo da versão, e aí dobrar a nota de modo que a boca do índio encontrasse a perna do número 5. Numa época quando criança não sabia o que era vídeo game isso causava sensação.


Mas pode-se dizer que a "Nota do Índio" era pelada quando comparada às cédulas que a "Casa da Moeda" produz hoje. Para que as notas modernas tenham sinais perfeitamente coincidentes nas duas faces, o dinheiro é impresso simultaneamente dos dois lados do papel. Se fosse impresso primeiro de um lado e depois do outro, a umidade da tinta e o processo de secagem faria o papel variar de tamanho e os desenhos nunca ficarem perfeitamente sobrepostos.

Do alto da passarela dava para ver a gráfica, as máquinas imprimindo, o dinheiro sendo cortado, embalado... Numa visita como aquela eu me sentia como quando você vai ao supermercado na hora do almoço e quer levar tudo o que vê. e naquela hora nem tentei defender minha classe. Ao longo do caminho o guia prometia repetidas vezes que me daria uma nota de cem reais no final do percurso.

E realmente deu: uma nota de cem reais picada em pedacinhos dentro de um saquinho plástico. Era parte do refugo de notas com defeitos que eles destroem e dão como souvenir para visitantes. Acho que vou até levar na carteira para quando eu tentar pagar algo com uma nota de cem e o vendedor perguntar se não tenho dinheiro trocado. Vou fazer de conta que entendi "dinheiro picado".

Em um determinado momento pude observar que havia uma grande sala com várias mulheres sentadas em mesas com blocos de papel moeda já impressos e ainda não cortados. Elas folheavam os blocos de um lado para o outro, viravam, folheavam outra vez, desviravam, tornavam a folhear....

Perguntei o que faziam, e meu guia informou que elas procuravam defeitos na impressão. Reparei que só havia mulheres naquela seção e ele explicou que a mulher tem uma melhor visão periférica que faz com que seja melhor que o homem para encontrar defeitos. Eu nunca duvidei disso, mas agora tinha minha teoria cientificamente comprovada. Obrigado, "Casa da Moeda".

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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3 comentários:

  1. Todo esse enredo para chegar ao clímax da história...simplesmente sensacional.
    Obrigado Mario!
    Muito bom ler suas crônicas.

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  2. Muito bom, Mario. Já virei sua fã, assisti há alguns vídeos e estou adorando o seu trabalho.

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