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Sou tecnobrega

Veja você, eu era tecnobrega e não sabia! Não sabe o que é tecnobrega? Trata-se de uma grande sacada para a produção, promoção, venda e distribuição de conteúdo artístico e intelectual. Coisa de Brazil com “z” na literatura lá fora.

Junte tecnologia, pirataria, mau gosto e criatividade, bata com muito ritmo, e o tecnobrega está pronto pra inglês ver. O modelo de negócio é citado no livro “Free - O futuro dos preços”, por Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired e também autor de “A Cauda Longa”. A versão em áudio do livro “Free” é... FREE!

A idéia não é nova. Há dez anos escrevi sobre o que aprendi com Kevin Kelly, co-fundador da Wired, que também entrevistei na época. Funciona assim: quanto mais rara a coisa é, mais cara. Por outro lado, quanto mais abundante, mais o seu preço tende a zero. ZERO! Respire fundo e você vai entender.

Quando alguns artistas paraenses perceberam que o atual modelo de distribuição de música estava no bico do corvo, decidiram inovar. No passado o artista só ganhava quando tirava a viola do saco, porém a tecnologia permitiu que ele e a viola ficassem em casa, enquanto a música viajava e faturava no som gravado.

E foi nesse céu de brigadeiro que a indústria fonográfica voou enquanto a tecnologia de gravação e distribuição estava restrita a quem podia pagar por ela. Mas alegria de rico também dura pouco, e a abundância tecnológica fez esse custo tender para... ZERO!

Isso mesmo, não custa nada para o carinha copiar a música e passar para trocentos amigos na Internet. A mesma tecnologia que mandou o artista enfiar a viola no saco e ficar em casa, avisou que agora é hora de cair na estrada, como no tempo dos menestréis. É mudar ou morrer.

Tecnobrega é a alternativa viável para os novos tempos. O músico grava seu som num estúdio caseiro ou alugado e entrega o CD para o camelô piratear à vontade. Ok, foi resolvida a questão da gravação e distribuição a preço de banana, mas o que o artista ganha com isso? Nada, mas fica conhecido.

O dinheiro vem das apresentações ao vivo, que também são gravadas em DVDs e CDs e entregues... isso mesmo, ao camelô. A cada volta da roda o artista é mais valorizado e mais solicitado, e pode cobrar mais pelo show. Alguém gravou um vídeo e colocou no Youtube? Maravilha! Tem carinha pirateando o som adoidado na rede? Melhor ainda para o artista tecnobrega!

Sem querer querendo, descobri que também sou tecnobrega. Não toco e nem canto, mas escrevo, e há mais de dez anos incentivo a cópia livre e descarada de minhas crônicas. Meus textos também viram locuções caseiras em vídeo e áudio, além de alguns de meus livros já estarem disponíveis para download. FREE! Onde eu ganho? Na venda de meu trabalho ao vivo e em cores em palestras e treinamentos.

- Alô? Mario Persona? Recebi de um amigo um [texto, vídeo, áudio] de sua autoria. Você pode vir à minha empresa falar sobre aquele assunto?
 
É claro que vou. Só em 2008 enviei 535 propostas a solicitações assim sem fazer um único “cold call”, que é quando o vendedor toma a iniciativa de ligar ou visitar um possível comprador. Este número não inclui solicitações de curiosos, mas só de empresas realmente interessadas, e equivale a enviar uma proposta e meia por dia. Obviamente só envio as propostas inteiras.

Se fechei todas? Nem em sonho. Mas se considerar que não gastei um centavo com propaganda e a promoção foi feita no camelódromo web, posso me considerar um tecnobrega de carteirinha. Porém as semelhanças terminam aí. No mais, que me perdoem os amantes do gênero, eu ainda acho a música tecnobrega cara.

Para saber mais:
“Tecnobrega: O Pará reiventando o negócio da música” - Livro grátis para download.
“Free - The radical future of prices” - Audiobook grátis em inglês do livro de mesmo nome (veja no "Criado Mudo" abaixo a versão vendida). 
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Free: Grátis - O Futuro dos Preços
Chris Anderson
Com a maestria que lhe é peculiar, Anderson volta à cena com este livro único e inspirador, onde o leitor encontrará em texto embasado a tendência de zerar custos trazida pela era digital.

Anderson afirma com veemência que estamos entrando numa era em que a economia pode ser construída em torno do conceito de "gratuito" e como isso afetará a vida das pessoas. Segundo ele, a ideia partiu de um dos capítulos de A Cauda Longa, que trata da economia da abundância. Ele acabou percebendo que nunca havia acontecido de toda uma economia ser construída em torno do gratuito e resolveu, então, mostrar como as pessoas fazem dinheiro e quais são as implicações disso.

O futuro, segundo ele, reserva surpresas inimagináveis até bem pouco tempo para os negócios.


Autor do best seller A Cauda Longa, sucesso de crítica e de público, Anderson é conhecido e reconhecido pela mídia brasileira e um nome de grande representatividade no campo do pensamento futurista, da gestão e da inovação.

Editora: Campus
Autor: CHRIS ANDERSON
ISBN: 9788535230680
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 288
Acabamento: Brochura
Formato: Médio 



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E a gorjeta, doutor?

Tres reais

O táxi que me levava ao aeroporto era dirigido pela tartaruga em pessoa. Não que o motorista fosse lento. Não era. Apelidei-o de 'tartaruga' só por ser enrugado e vivido. E também por lembrar a tartaruga da fábula de Esopo, "A lebre e a tartaruga", recontada por La Fontaine, onde não é a autoconfiança que vence, mas a perseverança que vem do reconhecimento das próprias limitações. O motorista era assim. Velho e calejado de erros que não se preocupava em esconder.

Ter ou não ter, eis a questão.





"Mario, suas dicas de gestão me impressionam muito pela clareza e coesão. Mas, se você tem um conhecimento tão vasto sobre teorias empresariais, por que você não é um multimilionário?"

Sua pergunta é instigante, mas o que será que quis dizer por "multimilionário"? Seria alguém com uma fortuna medida em milhões de um dólar que não seja o do Zimbábue? Se for, eu realmente não pertenço ao clube. Mas se quis dizer simplesmente "rico", então sou rico. Mas quão rico sou?

É difícil definir quão rico alguém é. Quando perguntaram a John D. Rockefeller quanto dinheiro era suficiente, ele respondeu "mais um pouco". Quando perguntei à minha mãe o que ela gostaria que eu fosse quando crescesse, ela respondeu que preferia um filho balconista e feliz a um dono de indústria infeliz. Desde então procuro ser rico como um balconista feliz.

Em uma sociedade onde você é medido pelo que possui, pouca gente já parou para questionar se o dinheiro é a melhor régua para se medir o sucesso. Apesar de tantas celebridades que entram e saem das clínicas de reabilitação, continuamos a associar riqueza material à realização pessoal e profissional.

Uma pesquisa feita com os 400 mais ricos da lista da revista Forbes revelou que o índice de satisfação dos magnatas era o mesmo encontrado entre o povo Inuite da Groenlândia e os Masai do Quênia. Ambos vivem muito bem sem eletricidade e água encanada.

Eu sei que este meu papo está mais para desculpa de incompetente, e que você, se fosse curto e grosso, estaria querendo dizer simplesmente “Mario, walk the talk!”, como dizem os ianques. Mas você foi educado a ponto de rogar que eu não interpretasse sua pergunta como provocação. Então vou ser sincero: não sou multimilionário simplesmente por não enxergar razão para navegar para um Norte que não está em minha bússola. Além de, obviamente, gostar do porto atual.

Interprete isto como falta de ambição ou de perfil empreendedor, mas não é. Inventores, artistas e escritores empreendem o tempo todo, mas poucos fazem isso de olho no milhão. O que os move não é a ganância de ter, mas o prazer de ser e fazer. É neste clube que você vai me encontrar.

Mas não pense que pessoas assim têm motivos mais nobres e altruístas do que os do clube do milhão. Não têm. O orgulho de ser e o desejo utilitarista de fazer são tão egocêntricos e gananciosos quanto o apetite de possuir. No fundo tudo não passa de uma forma de justificarmos nossa existência e utilidade no mundo e na sociedade. O “mais um pouco” do Rockefeller também se aplica ao ser e fazer.

O problema é que estas coisas jamais levam à saciedade, já que o vazio que tentamos preencher com elas é do tamanho de Deus. Mas vou deixar estes assuntos mais estratosféricos para você acompanhar em meu blog www.3minutos.net.

Enquanto isso, para dar uma resposta objetiva à questão que levantou, vou traduzir sua pergunta assim: "Como é que uma pessoa que ensina a empreender não se tornou um grande empreendedor?"

John Nelson Darby responderia que “os olhos enxergam muito além do que os pés conseguem alcançar”. Isso mesmo. Pode apostar que muitos dos grandes autores e professores de gestão quebrariam a cara se tentassem administrar um negócio. Mas seus pupilos provavelmente não. Por que? Pela mesma razão que Pelé não é o melhor técnico de futebol do mundo e os melhores técnicos do mundo nunca foram Pelé.

Se um dia você me encontrar multimilionário foi por ter tropeçado num bilhete de loteria, e não por apostar nela ou num grande negócio. As duas coisas não estão em minha agenda. Meu prazer está em escrever e ensinar aquilo que consigo enxergar "sentado nos ombros de gigantes”, como diria Isaac Newton.

O comercial que vi na CNN talvez consiga traduzir melhor o que sinto. A cena mostra um garotinho e seu pai caminhando de mãos dadas e o menino dizendo ao pai que, quando crescer, quer ser professor. Mas o pai tenta convencê-lo a seguir outra carreira.

- Você não prefere ser médico? Médicos são mais admirados e respeitados, além de ganharem muito mais.

- Mas não são os professores que ensinam os médicos? - argumenta o garoto encerrando a conversa.

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Manual do Empreendedor - Jerônimo Mendes
Este livro é indispensável para todo empreendedor ou candidato a futuro empreendedor que deseja entender, fazer parte e ainda prosperar no universo extremamente competitivo dos negócios. Trata-se de um guia que expõe aos empreendedores, empresários e seus respectivos colaboradores as premissas básicas e avançadas desse fenômeno chamado empreendedorismo. Abrange desde os conceitos relacionados ao tema, os primeiros passos para quem deseja empreender, a necessidade de se construir uma visão e uma missão de negócio, as fases do processo empreendedor e o principal desafio a ser enfrentado a partir do momento em que o empreendimento "decola", o de equilibrar a vida pessoal e profissional.




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E a gorjeta, doutor?

Café com o presidente e comigo

Ontem muita gente que não era nada acordou jornalista, inclusive eu. Bem, a verdade é que nos últimos anos já fui jornalista, ora sim, ora não, por ser detentor de um registro de jornalista a título precário no MTB. Tudo começou quando me preocupei com as colunas que escrevia para jornais e revistas sem ser jornalista formado, mas arquiteto e urbanista.

Uma consulta feita por uma amiga a um sindicato de jornalistas retornou assim:

"Você só poderia estar legalmente escrevendo sobre arquitetura ou assuntos relacionados com a sua área de conhecimento... Portanto, você não poderia estar escrevendo em nenhum veículo de comunicação. Assim, recomenda-se o curso de Jornalismo, ou seja, a graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, para futuramente requerer o seu registro no MTB." Minha amiga ainda perguntou se isso incluía a Internet e a advogada respondeu que sim.

Por isso quando em 2001 uma liminar suspendeu a exigência de diploma, corri entrar com um pedido de registro no MTB, anexando recortes de minhas colunas em jornais e revistas. Preocupava-me a possibilidade de algum sindicato decidir me amordaçar. Afinal de contas, se os concursos públicos utilizam meus textos na seleção de profissionais de diferentes profissões, não é só minha mãe que achava que eu levava jeito para a coisa.

O Google me ajudou a descobrir que meus textos já caíram em concursos para engenheiros, professores, enfermeiros e até médicos psiquiatras. Não me pergunte o que pediam as questões. Nem procurei saber, com medo de não conseguir respondê-las ou descobrir algo como "Encontre os erros no texto de Mario Persona".

Mas a partir de hoje já posso dizer que sou jornalista, pois se o Supremo Tribunal Federal diz que sou, acabou aquela história de ser ou não ser, e ninguém vai contestar a questão. É claro que o anúncio do Planalto feito na véspera, de que o presidente Lula escreverá uma coluna para os jornais a partir de julho, foi apenas coincidência. Agora eu e o presidente, que já atuava como radialista, somos colegas de profissão. Penso até em convidá-lo para uma parceria. Não se espante se o "Mario Persona Café" virar "Café com o presidente e comigo".

Teve jornalista que saiu da pauta com o presidente do Supremo Tribunal Federal, por este ter comparado jornalistas a chefes de cozinha. Eu jamais me intrometeria nessa discussão, mas já que sou jornalista sinto-me no dever de fazê-lo em defesa dos interesses da classe.

Quer saber? Também não gostei de ser comparado a um chefe de cozinha, porque chefe de cozinha pode ser qualquer um que manda o empregado da pastelaria fritar pastéis. Nada contra os pastéis.

Mas eu acho que o presidente do STF quis dizer "chef", em francês, um artista do sabor, desses que vejo na TV preparando pratos cinematográficos enquanto como meu miojo. Aí sim, adorei. Um chef e um jornalista têm muitas coisas em comum que não são aprendidas na escola, mas dependem de talento.

Ambos têm senso artístico para esculpir pratos e textos saborosos. Se o chef é capaz de discernir temperos apenas com o paladar, o cérebro do jornalista é dotado de papilas gustativas que discernem a informação. Os dois são capazes de depurar o que há de melhor na matéria bruta de cada profissão e servir apenas o que importa. A isto se dá o nome de poder de síntese. O jornalista está mais para chef, artista ou músico, do que para engenheiro, físico ou advogado.

- E a ética?! - gritará alguém. Você já viu diploma transformar picareta em caneta? Ética e responsabilidade têm mais a ver com berço do que com terço, portanto decorar Sócrates, Aristóteles e Platão não irá adiantar. De criatividade, então, nem preciso falar. O ensino cartesiano é um grande lobotomizador de hemisférios direitos.

Quem faz faculdade ou deu duro para terminá-la está agora chorando num canto da fila do emprego ou da Caixa Econômica Federal, onde fez um empréstimo para pagar o curso. Sei o que é isso, pois um dia também vi meu diploma virar fumaça, não por uma decisão do STF, mas pelas circunstâncias do mercado de trabalho. Quer saber? Hoje estou bem melhor trabalhando como consultor, palestrante e escritor.

Mas isto não significa que não possa mudar de profissão. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal e as declarações de seus ministros fiquei muito animado a tentar uma nova e lucrativa carreira. Vou abrir um restaurante.

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Arte de Escrever Bem: um Guia para Jornalistas e Profissionais do Texto - DAD SQUARISI & ARLETE SALVADOR
Escrever é fundamental. Afinal, quem, nos dias de hoje, não precisa mandar mensagens pelo correio eletrônico, escrever relatórios, fazer vestibular, ou produzir uma matéria jornalística? Este livro, inicialmente destinado a jornalistas e profissionais do texto, é o mais claro e bem humorado que qualquer um que precise escrever bem pode obter. Donas de texto impecável, agradável e atual, Dad Squarisi e Arlete Salvador mostram como é possível redigir de modo adequado e despretensioso.
Editora: Contexto
Autor: DAD SQUARISI & ARLETE SALVADOR
ISBN: 8572442790
Origem: Nacional
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 112
Acabamento: Brochura
Formato: Médio


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E a gorjeta, doutor?

Quem quer ser bilionário?

Bill Gates deu um conselho: doe seu dinheiro. Achei o conselho ótimo, apesar de não me enquadrar nem entre os que devem doar, nem entre os que devem receber. Na verdade é um conselho de bilionário para bilionário, nada a ver comigo.

Não que eu não pudesse ser um, até poderia. Afinal, eu e o Bill nascemos no mesmo ano de 1955, eu em fevereiro e ele em outubro, o que me dá uma vantagem de oito meses sobre ele. Só não estou bilionário porque isso não fazia parte de meu plano de carreira.

A verdade é que nunca quis ser bilionário e nem milionário. Centenário? Também não, eu me sentiria velho. Ser bilionário traria mais problemas do que soluções. Primeiro, eu nunca saberia quando parar de ganhar, e não acredito que algum bilionário saiba. Quando perguntaram a John D. Rockefeller quanto dinheiro era suficiente, ele respondeu: "Só mais um pouquinho".

Quem tem muito dinheiro precisa também aprender novos parâmetros. Quando meus filhos eram pequenos e pediam algum brinquedo, eu convertia o preço em revistas Veja para eles terem uma noção do valor. Hoje, já crescidos, a coisa virou piada e não raro eles brincam comigo: "Por que não compra essa camisa, pai? São só 10 Vejas". Caso eles estejam lendo, aqui vai: um bilionário pode comprar 112.359.550 revistas Veja.

Embora admire Bill Gates, eu não queria estar na pele dele, e isso não é por causa das sardas. O fato é que jamais serei como ele, o homem mais rico do mundo e dono da Microsoft, isso eu garanto. Se eu fosse ele, como iria explicar que desisti de usar o Windows Vista e voltei ao velho e bom Windows XP? Ou que escrevo esta crônica no BR-Office, porque meu Microsoft Word ainda não aprendeu a nova ortografia? Seria constrangedor.

Porém, o fato de eu ter decidido não ser bilionário não me impede de fazer doações. Por isso estou doando dois de meus livros esgotados, "Marketing de Gente" e "Marketing Tutti-Frutti", que agora podem ser baixados grátis em formato digital ou e-book. Se preferir ler em formato impresso, vai pagar pelo custo da produção sob demanda, no www.clubedeautores.com.br, www.lulu.com e em breve também em www.amazon.com.

Bilionários atraem a inveja das pessoas e até ameaças. Sabia que já fizeram dois filmes chamados "Kill Bill"? Outro problema que os bilionários têm, e eu não, é precisar fugir dos paparazzi, pedidos de doações e vendedores de rifa de Ferrari. Divulgar o telefone ou dizer onde moram, então, nem pensar!

Sir Paul McCartney, outro bilionário, ficou fulo quando soube que sua casa podia ser vista no Street View do Google Earth e Google Maps. Seus advogados exigiram que a Google tirasse a casa de lá. Paul mora em Londres e eu moro em Limeira, interior de São Paulo. Se eu exigir isso vão rir de mim.

Mesmo que eu decidisse falar com a Google, antes precisaria ter a permissão dos outros condôminos, pois moro em um prédio de apartamentos. Se você já participou de uma reunião de condomínio sabe que há mais chances do Bin Laden se casar com Tzipi Livni, a ministra das relações exteriores de Israel, do que os condôminos chegarem a um consenso.

Já posso até ver algum vizinho alegando que se o Google tirar o prédio do mapa seus amigos não encontrarão o caminho para visitá-lo. Outro, que usa GPS, vai achar que o mapa é o mesmo e aí nunca mais vai conseguir voltar para casa. É claro que terá também alguém dizendo que fazer o prédio sumir do mapa só vai deixar o meu endereço mais fácil de ser encontrado. Qualquer um que pedir informações vai receber a dica:

- O endereço do Mario Persona? Fácil! Entre no Google Maps, digite 'Limeira' e procure o prédio que está faltando.
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Nós Queremos que Você Fique Rico: Dois Bilionários: uma Só Mensagem - Donald Trump e Robert T. Kiyosaki
Este não é um livro de auto-ajuda financeira. Trump e Kiyosaki não dirão em que você deve investir, mas contarão o que pensam a respeito do dinheiro, dos negócios e dos investimentos. Segundo eles, uma das definições de liderança financeira é visão. Este livro fala exatamente sobre essa visão, observando o que a maioria das pessoas não consegue através dos olhos de dois vencedores (e por vezes perdedores também) no jogo do dinheiro. Nós Queremos que Você Fique Rico é um livro extraordinário, que, com um texto leve, trará novos insights sobre como melhorar seu futuro financeiro e tornar-se rico. É uma leitura esclarecedora.
Editora: Campus
Autor: DONALD TRUMP & ROBERT T. KIYOSAKI
ISBN: 9788535223729
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 328
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



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E a gorjeta, doutor?

Com a língua nos dentes

O êxodo de profissionais que saem do Brasil para viver e trabalhar no exterior não é coisa nova. Começou no regime militar, mas naquele tempo eles eram exilados ou deportados. Hoje são expatriados. 
Ser expatriado é dar um passo no ar, pois não basta conhecer o idioma, as leis e o modo de vida do país destino. Há nuances culturais que podem se transformar em verdadeiras pedras no sapato, expressão que só fará sentido se a população do país não andar descalça ou de chinelos.

Veja, por exemplo, o politicamente incorreto. Passar a mão na cabeça de uma criança na Tailândia é ofensivo, e a menos que você tenha sido fechado no trânsito, nunca faça sinal de positivo com o polegar para cima na Austrália. Na China, não entre sambando se o salão estiver cheio de flores e pessoas vestidas de branco. Não é baile do Havaí. Branco é a cor do luto e deve haver um cadáver ali em algum lugar.

Não são apenas os brasileiros que sofrem no exterior. Um suíço que venha morar no Brasil vai encontrar a anfitriã de roupão e bobs no cabelo, se chegar para o jantar das 19:00 horas exatamente às 19:00 horas. E se participar de uma reunião de trabalho, vai perceber que reunião aqui começa quando todos chegam, e não na hora marcada. E termina quando todos saem.

Isso porque o tempo também possui significados diferentes em diferentes culturas. Os ditados populares deixam isso bem claro. Nos EUA “tempo é dinheiro”, na Espanha “aqueles que correm chegam primeiro à sepultura”, e na Etiópia “se você esperar tempo suficiente, até um ovo é capaz de andar”.

O hábito de dar presentes também difere de um país para outro. No Japão, é melhor não abrir o presente na frente de quem o deu, e nem esperar que o outro abra o que recebeu. Se receber um cartão de visitas no Japão, faça-o com ambas as mãos e fique segurando enquanto o seu interlocutor estiver ali. A regra não se aplica se você estiver dirigindo.

É provável que a maior dificuldade esteja no significado das palavras, algo que ocorre até nas diferentes regiões do Brasil. No interior de São Paulo dizemos que o vidro de um carro está “dando ar”, mas não tem nada a ver com o quebra-vento, e sim com o reflexo do sol que incomoda. Na minha região, qualquer balconista de loja de material elétrico lhe dará um plugue em formato de “T” se você pedir um “benjamim”. Em outras regiões é capaz de sair da loja acompanhado de um rapaz.

Se você for trabalhar em Portugal, é bom atualizar seu vocabulário, ou não vai entender quando ligar para alguém e ouvir: “Estou!”. Se a ligação vier abaixo, não é nenhuma calamidade, e se precisar ir à casa de banho não se esqueça de carregar o autoclismo. Você pode tomar um eléctrico, mas se decidir caminhar é melhor ter um penso no calcanhar. Só não pare na passadeira para ajeitar as peúgas, ou será mais um peão assustado com o travão do camião. Se sobreviver, coma uma sandes com um refrigerante fresco, mas antes peça à rapariga da lanchonete para tirar a cápsula.

Percebeu a dificuldade? Traduções também podem se transformar em armadilhas, principalmente quando palavras de idiomas diferentes forem parecidas. Quando jovem, mudei de casa e cidade tantas vezes que essa minha tendência nômade foi motivo de um comentário feito por um amigo suíço que deixou meu pai indignado. Usando o inglês para fazer a ponte para seu péssimo portunhol, meu amigo simplesmente traduziu do seu jeito a palavra “vagabond” e lascou:

- Seu filho é um vagabundo!
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Expatriação de Executivos - Isabella F. Gouveia De Vasconcelos
O livro Expatriação de Executivos apresenta a pesquisa em expatriação através de grandes correntes de pesquisa. A primeira trata de estratégia empresarial, mostrando como a expatriação pode ser um instrumento para desenvolvimento de competências fundamentais do grupo organizacional. A segunda corrente crítica, associada ao estudo do poder, mostra que os expatriados que melhor sabem negociar e reconstruir suas inserções políticas no país de destino têm sucesso na expatriação. A terceira corrente é ligada a estudos sociológicos e culturais dando ênfase a adaptação do expatriado à cultura do país de destino. Por fim, a quarta corrente trata do modelo transformacional de gestão de pessoas e fala dos processos afetivos ligados à expatriação, associando a pesquisa à análise em psicodinâmica organizacional.
Editora: Cengage Learning
Autor: LENI HIDALGO NUNES & ISABELLA F. GOUVEIA DE VASCONCELOS & JACQUES JAUSSAUD
ISBN: 9788522106103
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 134
Acabamento: Brochura
Formato: Médio




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E a gorjeta, doutor?

Encantamento

O apito do navio é de tirar o fôlego. Forte, grave, resoluto. Um momento mágico. Ser embalado por aquele gigante de aço, enquanto a cidade encolhe no horizonte, traz um misto de fragilidade e poder. Sou um príncipe e o conto de fadas agora é aqui. Será que aquilo ali é um sapatinho de cristal? A fantasia está só começando.

Cercados de espelhos e cortesias, os passageiros se sentem contemplados com uma dignidade que a vida diária costuma lhes negar. Desdobram-se em mesuras nos corredores e elevadores, todos limpos, lindos e polidos, como o corrimão dourado das escadas que levam aos andares-surpresa daquele palácio.

O ambiente tem um papel essencial no encantamento, seja num navio, shopping ou botequim. Mas qualidade, eficiência e perfeição não bastam. Enquanto o botequim fica cheio de gente que precisa escolher o lado limpo do copo, o barzinho chique fica vazio. Ambiente não é soma de características, é conjunção.

Coloque duas mil pessoas confinadas num navio, com uma decoração de um luxo que beira a breguice, e você satisfaz um espectro que vai do chinelão ao cromo alemão. Entuche comida às arrobas, esconda a balança e crie danças comandadas, e uma legião de glutões dormentes e obedientes vão sorrir contentes. O que essa conjunção tem a ver com você? Tudo.

Alimente bem seu cliente e você terá um exemplar dócil à sua frente. De pedidos de noivado a jantares de negócios, o encantamento à mesa quebra a resistência, a bebida amortece e a sobremesa dociliza na hora de acatar a proposta. Só não coma mais do que o outro, ou o dócil será você.

A equipe também é importante no encantamento. No navio, os cargos culinários têm sotaque italiano, as dançarinas soam argentinas e as mesas são servidas por gentis orientais. Experimente trocar por britânicos, alemães e franceses, nesta ordem, para ver se funciona. Enquanto isso, os passageiros são assados no deck ao som de Ivete Sangalo, porque ritmo é importante.

O ritmo embala e seduz, e não é à toa que uso o truque das três palavras em meus textos. "Forte, grave e resoluto". Todos nós temos um relógio interno e funcionamos melhor com ritmo, tanto para estimular como para ninar.

Shakespeare escrevia no compasso do coração. As rimas trissilábicas do primeiro livro infantil do Dr. Seuss foram escritas no porão de um navio no ritmo dos pistões. Roberto Menescal tentava dar partida num barquinho à deriva na Baía de Guanabara e o motor só fazia "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá..." e morria. Enquanto era rebocado para a praia, Menescal transformava aquele "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá" na melodia de "Di-a-de-luz... fes-ta-de-sol..."

Recapitulando: Um misto de fragilidade, para se deixar levar, e poderio para achar que está levando. Uma dignidade real que a vida costuma negar. Uma conjunção de fatores que satisfaça um amplo espectro de desejos. Deleite físico e mental para desarmar e docilizar. Serviços com os sotaques que os clientes esperam que tenham. E ritmo, muito ritmo, trazendo todos sob a batuta de um maestro invisível.

A cena muda...

Estou agora em um salão enorme. Duas mil pessoas com suas malas desembarcadas se digladiam para sair por uma porta estreita. A sensação é de pasta de dente. Esqueço a pasta quando sinto o bafo quente e barulhento do cais. Logo adiante uma mulher agarra o companheiro pelo colarinho e senta a mão em sua cara. Será que pegou o marido com a mala da outra?

Depois de morar na fila do táxi, chega a vez do casal à minha frente bater boca com o taxista que cobra preço fixo e não vai pelo taxímetro. Quem passou uma semana tomando cerveja em dólar, agora discute por uma diferença do tamanho de uma latinha. Pego o táxi que o casal recusou e pergunto ao motorista se aquela balbúrdia no desembarque é normal.

-- O senhor não viu nada. Semana passada duas mulheres saíram no tapa por causa de um lugar na fila. Coisa feia, de arrancar cabelo e pele na unha. Foi preciso apartar.

Enquanto o carro dribla o trânsito para escapar do cais, olho para trás. O navio não está mais lá. Em seu lugar há uma imensa abóbora. A fantasia acabou. O sapato de cristal desapareceu de minhas mãos.

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Se Disney Administrasse Seu Hospital: 9 1/2 Coisas que Você Mudaria - Fred Lee
Livro obrigatório para quem trabalha com serviços. Fred Lee reuniu sua experiência como executivo em hospitais e uma passagem pelas organizações Disney para mostrar que o atendimento atencioso e singular gera lealdade e admiração pelas empresas capazes de prestá-lo.
Editora: Artmed
Autor: FRED LEE
ISBN: 9788577803705
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 212
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



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Incontestavel contexto

Meu neurologista ligou para dar duas notícias. Boas ou más? Depende. A primeira foi que eu não tenho nada na cabeça. A segunda, que leu algo sobre mim em algum lugar. Ouvir que não tenho nada na cabeça ou saber que meu nome saiu em algum lugar não é suficiente. Preciso conhecer o contexto.

Se eu fosse laranja de alguém e me dissessem que meu nome apareceu no jornal, não ficaria contente, mas apreensivo. Se fosse outro que me dissesse que não tenho nada na cabeça eu ficaria ofendido. Mas como veio do neurologista, de quem eu aguardava o resultado de um exame, que também diz que viu uma citação minha em um livro de marketing médico, já posso soltar rojão.

Conhecer o contexto é vital na comunicação, pois nunca sabemos o que uma partícula de nossa mensagem pode causar quando atinge um contexto desconhecido. Hoje, por exemplo, recebi um e-mail de um que não é meu neurologista, mas quis dar uma segunda opinião:

"Fico abismado com a cultura acima do normal e o conhecimento que o senhor tem. Mas fico mais triste em saber que o senhor não tem foco em sua vida. Aparentemente, salvo melhor juízo, o senhor é um oportunista, 'chavequista' e aproveitador de mentes. Sua administração cerebral não é das mais honestas."

Meu dicionário não tem "chavequista", mas tem "xaveco", que é "comportamento imoral, criminoso e cínico". Será que algo que eu escrevi gerou aquela reação por causa do contexto ou do mérito da questão? É comum alguém que só viu o rabo do elefante achar que o animal seja um pincel.

Alguém mal informado pode querer agradar outro que pegou febre amarela com o elogio: "bonita cor". Alguns, com filhos pequenos no contexto moral de sua sala, podem querer a censura de programas carregados de sexo, dinheiro e poder. Outros podem nem ligar que seus pequenos assistam à sessão da tarde da TV Senado em lugar do desenho animado.

O contexto também muda com o passar do tempo. Em 1903 dois obscuros mecânicos de bicicletas de sobrenome Wright fizeram um vôo secreto e o jornal de sua cidade natal, o Dayton Daily News, noticiou assim:

"RAPAZES DE DAYTON EMULAM O GRANDE SANTOS-DUMONT"

Como vocabulário também cria contexto, algum leitor menos versado pode achar que os irmãos Wright chamaram Santos-Dumont de ‘mula’. Nada disso. O jornal disse que eles 'imitaram' "o grande Santos-Dumont".

Grande Santos-Dumont? Num jornal americano? Sim, o jornal achou que o vôo secreto tinha sido em um dirigível, e na época todo mundo sabia que o milionário brasileiro que vivia em Paris e não perdia uma festa no Castelo de Caras era o Ayrton Senna dos dirigíveis.

Se perguntar hoje a um repórter do mesmo jornal é capaz de receber um "Santos-Quem?" como resposta. É que agora até a versão americana da enciclopédia Encarta traz os irmãos Wright como inventores do avião e Santos-Dumont como... ué, devia estar por aqui...

Não sei o que diz a versão brasileira, mas sei que a Microsoft criou diferentes versões para agradar a gregos, troianos e italianos. Nesta última o inventor do telefone é Antonio Meucci, e não o Graham Bell da versão americana. Enquanto na americana Thomas Edison inventa a lâmpada só, na versão britânica ele ganha um coadjuvante, o britânico Joseph Swan.

A Microsoft sabe que se não levar em conta o contexto do cliente ele descarta sua Encarta. O mesmo acontece na comunicação. Se o que eu disser não encontrar um par no contexto do universo de meu interlocutor, cuspi palavras ao vento. Aconteceu comigo esta semana.

Quando vi, de primeira mão, meu sexto livro numa vitrine, não resisti. Comprei um. Na hora de pagar, meu ego me garantiu que era impossível um escritor como eu não fazer parte do contexto de um funcionário de livraria. Por isso, para brincar, perguntei ao rapaz se o livro era bom, achando que ele me reconheceria pelo nome no cartão.

Não sei por que ainda escuto meu ego. A resposta do rapaz me fez ver que eu ainda não fazia parte de seu contexto.

-- Não conheço o autor. Mas o livro deve ser bom, porque o prefácio é do Max Gehringer. Os livros dele eu li e são bons.



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E a gorjeta, doutor?

Susan Boyle e o elo perdido

Das duas, uma: ou aquela figura neandertalesca, de cabelos desgrenhados e olhos miúdos entre sobrancelhas cerradas e maçãs salientes, é uma pegadinha, ou o programa "Britain's Got Talent" acaba de encontrar o elo perdido.


http://www.youtube.com/watch?v=z1qSYP-dsZM

Das duas, nenhuma. Aquela caricatura de mulher é Susan Boyle e sua presença no palco abre um tonel de zombarias. Quando Susan revela seu sonho de ser cantora profissional, como Elaine Paige a canadense Ellen Page, com metade da sua idade e um terço do seu peso*, a plateia debocha.

No júri, a atriz Amanda Holden, emoldurada pelo cético Piers Morgan e pelo acético Simon Cowell, se esforça para fazer cara neutra de paisagem, mas seu belo rosto parece dizer: "Isso vai ser divertido". Pelo menos até a voz de Susan acentar os primeiros acordes de "I dreamed a dream". Aí o queixo de Amanda cai, literalmente.

A platéia vai ao delírio. Em poucos dias Susan Boyle é vista mais de cem milhões de vezes no Youtube e muito mais na mídia global. O título da obra de Victor Hugo, "Os miseráveis", que a canção evoca é emblemático.

Susan Boyle é uma miserável cantando para miseráveis. Feia, deficiente e sem jamais ter tido um namorado, ela é tudo aquilo que nenhum de nós gostaria de ser, mas somos. Quando começa a cantar, porém, até Amanda Holden quer ser Susan. Ela aplaude de pé, e o jogo de câmeras contrasta o seu corpo esguio com a silhueta de canhão que ribomba no palco.

Talvez o correto não seja dizer que 'somos' miseráveis, mas sim que 'estamos' miseráveis, do mesmo modo que hoje Susan 'está' feia e Amanda 'está' linda. Em cinquenta anos o corpo de Amanda, hoje sensual, também será canhão, e sua pele, agora de pêssego, se transformará num maracujá de gaveta. Os miseráveis no júri e na plateia aplaudem porque torcem por Susan e por si mesmos, igualmente carentes de amor e perfeição, ainda que sob diferentes camadas cosméticas.

Estranho ser, esse humano! Almejamos padrões de bondade, justiça e beleza que sempre estão muito acima do que podemos alcançar. De onde será que vem isso? Vivemos na terra, mas de olho nas estrelas, porque trazemos em nós um sentimento de infinitude. É como se Deus tivesse plantado a eternidade em nossos corações. Se é que não plantou.

O paradoxo, porém, é que esse mesmo humano, capaz de proezas do talento e do pensamento infinitamente superiores a qualquer outro ser vivo, também é capaz de atrocidades nunca vistas na mais medonha fera irracional. Matamos nossos filhos para comê-los no jantar, mas também criamos um número infinito de filigranas a partir das mesmas e perfeitas sete notas musicais, como Susan faz no palco.

E ao cantar, ela nos lembra de que existe no humano uma dignidade além do que aparentamos ser. Trata-se do sopro divino, algo que nenhum animal recebeu. Por isso Deus não desistiu de sua criação e quis Se revelar em humanidade numa Pessoa perfeita, Jesus, ainda que miserável em sua tez exterior.

É por isso que torcemos por Susan Boyle, como quem torce pela Fera da Bela, pelo Corcunda de Notre Dame e pelo Frodo dos pés peludos de "O Senhor dos Anéis", vivendo sob a contínua tentação do anel. Nós nos identificamos com heróis fracassados porque acreditamos que ainda podemos ser amados, resgatados e transformados desta miserável condição. É como se sentíssemos saudade do Paraíso.

Susan Boyle não é o elo perdido. Ela apenas revelou que o elo existe, mas não com algum símio ancestral. Sob aquela semelhança feia, miserável e transitória foi possível ver um ser criado à imagem de Deus. Quem estava no palco não era uma pessoa estranha. Naquele palco eu vi a mim mesmo, como Deus me vê e me ama. E também vi você.

"Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido". 1 Coríntios 13:12



*Errata: Ao contrário do que eu e milhares de sites e blogs disseram, Susan Boyle é fã de Elaine Paige e não de Ellen Page. O sotaque escocês dela me confundiu.

Assista no site do programa Britain's Got Talent a versão completa do programa com Susan Boyle.

Assista aqui a versão legendada em português.



Les misérables
Versão de Cláudio Botelho para a peça no Brasil

Já houve um tempo de homens bons
De palavras gentis
E de vozes mansas.

Já houve um tempo de outros tons
E de tantas canções
E de tantas lembranças
E tanto mais
Que já não há.

Eu tinha um sonho pra viver
Um sonho cheio de esperança
De que um amor não vai morrer
E deus perdoa e não se cansa
Eu era forte e sem temor
E os sonhos eram de verdade
Não tinham preço nem valor,
Canções e sons pela cidade.

Mas a noite então caiu
E na noite tantas feras
Me rasgaram o coração
E tudo aquilo que eu sonhei.

Foi num verão que surgiu
Me oferecendo a primavera
Me prometeu mas não cumpriu,
Pois foi embora e eu fiquei.

E hoje eu sonho que vem
E nos seus braços eu me entrego.

Mas sei que é sonho e nada além
Dos velhos sonhos que eu carrego.

Eu tinha um sonho pra viver
Mas eis que a vida foi mais forte
E de repente eu acordei
Mataram tudo o que eu sonhei.


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A Fé na Era do Ceticismo - Timothy Keller
Apesar de uma minoria continuar a atacar a fé cristã, para a maioria das pessoas, a fé ocupa uma grande parte de suas vidas. Durante anos, Tim Keller formulou uma lista das dúvidas mais freqüentes dos céticos que freqüentam sua igreja em Manhattan. Em The Reason for God, ele destrincha e explica cada uma delas. Pensando nos ateus, agnósticos e céticos, Keller também construiu um pilar contra o qual os verdadeiros fiéis podem se apoiar quando forem bombardeados pelos que contestam sua fé. Por que há tanto sofrimento no mundo? Como pode um Deus amoroso deixar seus filhos irem para o inferno? Um Deus cristão não deveria ser um Deus de amor. The Reason for God vai ao cerne dessa questão religiosa e aponta o verdadeiro caminho e objetivo do Cristianismo.

Editora: Campus
Autor: TIMOTHY KELLER
ISBN: 9788535231045
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 300
Acabamento: Brochura
Formato: Médio




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E a gorjeta, doutor?

Rabo de tatu

Aquele participante do treinamento de oratória certamente conquistou a atenção de todos. Na hora do exercício prático, foi à frente e contou seu “causo” no melhor estilo sertanejo. Mas ele jurava que era verdade.

“Em minha chácara, perto da casa, mora um tatu. Ele costumava passear fora da toca sem se preocupar conosco, até conhecer nossa nova cadelinha. Foi tudo muito rápido. Antes de conseguir voltar para a toca, o tatu já estava preso pelo rabo. Corri lá e segurei o rabo da cadelinha, que estava sendo arrastada para a toca pelo tatu. Senti-me um idiota ali, sentado no chão segurando o rabo da cadela que mordia o rabo do outro animal, até o tatu conseguir se livrar e correr para a toca”.
 

Aerosafari

Estou num dilema. Minha passagem aérea diz "Apresente-se em nosso check-in com 1 hora de antecedência" e nem imagino quando é isso. Nunca sei, e olha que tenho viajado um bocado. Se reclamo dos atrasos? Sim e não.

Se o atraso me fizer perder um compromisso, é claro que vou odiar. Felizmente até hoje só tive um ou dois "quase". Fora isso, minha opção pelo humor -- sim, é uma opção que mais gente deveria fazer -- me ajuda a desfrutar das longas estadias aeroviárias. Aprendi a relaxar, o que não é muito, mas já representa 50% das atividades sugeridas pelo Ministério do Turismo para quem viaja de avião.

Aproveito para ler, escrever, cortar o cabelo, engraxar os sapatos, assistir TV, tomar café, almoçar ou jantar, às vezes tudo no mesmo dia. Mas nenhuma dessas atividades se compara ao aerosafari. Não tem gente que se embrenha nas florestas para observar a vida selvagem? Eu faço isso nos aeroportos.

É inacreditável quanta coisa esquisita você vê ali. Com a invenção do celular, então, a coisa ficou ainda mais pitoresca. Se estiver numa sala de espera em um dos primeiros vôos da manhã para alguma capital, esqueça ler ou fazer palavras cruzadas. A falação é demais.

Sinto-me numa Bolsa de Valores. Outro dia tinha um chinês caminhando de um lado para o outro berrando sempre as mesmas coisas, cada vez mais alto. Não sei mandarim, mas deduzi que seu interlocutor também não devia saber.

Nunca entendi por que os homens telefonam andando e as mulheres sentadas. Alguns só conseguem falar de olhos fechados, desenhando no chão com a ponta do pé ou gesticulando para explicar tamanhos e formatos das coisas. Para quem costuma falar com as mãos já existe a opção do celular auricular. Ótimo também para quem costuma falar sozinho e quer disfarçar.

Conversas truncadas aqui e ali servem para eu brincar de quebra-cabeça mental. Como elas nunca têm fim nem começo, sinto-me assistindo a um filme "cult", desses que todo mundo se esforça para fazer cara de quem entendeu.

Mas não é só na espera que dá para relaxar. O embarque também tem seu lado pitoresco. Após um dia inteiro esperando um embarque que só veio à noite, entrei no avião atrás de uma mulher estourando de grávida. Pela tensão do vestido calculei que seu vôo devia estar atrasado desde o segundo ou terceiro mês. Não resisti perguntar à comissária, que sorria na porta:

-- Se nascer agora ela precisa voltar ao guichê e comprar mais uma passagem?

Em outro vôo arrepiei com o despreparo do funcionário. Entrou correndo na cabine com uma mochila na mão, anunciando:

-- Alguém esqueceu na sala de embarque?

Ninguém. Se fosse a bomba que os avisos nos aeroportos dizem para a gente não mexer, eu teria visto uma versão moderna do Cavalo de Tróia. Minha última visão.

Não basta decolar para a diversão acabar. Divirto-me com os sotaques e expressões de gente de todas as cores, línguas e sabores viajando naquela panela de pressão cultural. Outro dia ouvi um passageiro responder a outro, que perguntou de sua bagagem:

-- Amigo, do jeito que as coisas estão difíceis, minha mala é um saco e o cadeado é um nó!

Mas nem todas as expressões têm graça. Antes de atingirmos a altitude de cruzeiro, o comandante escolheu uma expressão das mais infelizes para anunciar isso:

-- Nossa altitude no momento é de 30 mil pés e dentro de alguns minutos estaremos batendo nos 36 mil.

Geralmente não me preocupo com a possibilidade de acidente ou pane no avião, pois ainda é o meio de transporte mais seguro que existe, quando existe. Meu receio fica guardado para o táxi da última etapa da viagem. Mas confesso que uma vez fiquei preocupado sim.

Foi em uma escala em Brasília, onde embarcou um jovem que chamou minha atenção. Não pude deixar de pensar no pior, mesmo sabendo que o mais provável era que ele estivesse a caminho de alguma competição. Parado no corredor ao meu lado, afastou algumas maletas no bagageiro para caber sua mochila, e virou de costas para mim para tirá-la. Foi quando percebi que aquilo não era mochila. Era um pára-quedas.



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E a gorjeta, doutor?

O saco grande

Dois sacos, é o que você encontra em algumas companhias aéreas. Um pequeno, para grandes indisposições, e um grande para pequenas disposições. Neste somos convidados a dispor do lixo, quando as comissárias o arrastam pelo corredor, anunciando: "Vamos recolher copos, papéis e jornais, para que os passageiros que aqui embarcarem encontrem a cabine limpa e arrumada".

Acho ótimo, pois também não gosto de encontrar lixo dos outros. Exemplos? Surpresa no vaso sanitário, cabelo no pente e elevador fedido, denunciando que alguém passou por ali sem respeitar quem vinha depois. Casos mais graves incluem a descoberta tardia de um porta-papel só com o osso do papel higiênico, aquele tubinho extremamente desconfortável e pouco absorvente.

Pensei nisso ao ser convidado para uma série de palestras sobre aquecimento global, um assunto que não parecia tão escabroso em meus tempos de bicho-grilo. Acho que só faltou você para eu contar que fui ativista ecológico nos tempos de faculdade. Tão radical, que saí de lá direto para morar três anos no mato em busca de uma forma de salvar o planeta. Já deve ter reparado que não encontrei.

Meu trabalho de conclusão do curso de arquitetura e urbanismo foi o projeto de uma comunidade agrícola usando tecnologias alternativas e recursos renováveis. Na época a colocação daquelas idéias em prática esbarrava em 4,5 bilhões de problemas, número que hoje atinge os 6,5 bilhões.

Não há nada de errado com o planeta. O problema está com as pessoas que moram nele. Estou cada vez mais convencido de que preciso ajudar as comissárias a passarem o saco grande e deixar a cabine limpa para os passageiros que embarcarem depois que eu embarcar. Estou aqui apenas pensando em voz alta o que já faço e ainda preciso fazer.

Já reduzi o consumo de carne vermelha há algum tempo e meu próximo carro será movido a álcool. Combustíveis fósseis e pum de ruminantes são dois grandes responsáveis pelo aquecimento global, o segundo respondendo por 25% do problema. Além disso, a produção de um quilo de carne exige 15 mil litros de água. Quando alguém disser que a vaca foi pro brejo pode acreditar que o brejo vai secar.

Também venho usando o mínimo de toalhas de papel em banheiros públicos e já caminho até o varejão perto de casa munido de duas velhas sacolas de ráfia, para evitar colocar em sacolinhas as frutas e verduras já ensacadas. Além disso, dou preferência a produtos orgânicos, embalagens recicláveis e equipamentos com selo "energy saver".

Mesmo assim vou continuar com a consciência pesada pelas constantes viagens de avião, o Cascão dos ares. Tomara que as empresas parem de fazer eventos longe da sede, assim menos gente precisa viajar e eu não preciso cruzar o país para falar a pessoas que moram do outro lado de minha rua.

Sei que minha ajuda é uma gota no oceano, mas o oceano não é feito de gotas? Em "O homem que plantava árvores" Jean Giono conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas que transforma um desolado vale em exuberante floresta enfiando sementinhas no solo com seu cajado enquanto pastoreia. No processo ele muda de profissão para evitar que as ovelhas prejudiquem as árvores novas. Vira criador de abelhas.

Embora seja uma obra de ficção, a vida imita a arte pelas mãos de pessoas como Abdul Karim, que criou uma floresta na Índia usando o método de Bouffier, e Wangari Maathai, Prêmio Nobel de 2004 e fundadora do Greenbelt Movement, que plantou 30 milhões de árvores para recuperar o meio-ambiente do Quênia.

Se você acha que coisas pequenas são insignificantes, pense nos emergentes da China que resolveram substituir os velhos pauzinhos laváveis pelos modernos hashis descartáveis. No ano passado 450 bilhões deles foram produzidos às custas de 25 milhões de árvores. Será que alguém podia ir até lá avisar que já inventaram o garfo?

Pode parecer bobagem me preocupar com isso, já que com a minha idade não falta muito para atingir a marca da longevidade do brasileiro. Embora sinta pena de meus amigos de infância -- você não imagina o quanto eles envelheceram! -- sinto-me jovem o suficiente para ajudar a passar o saco grande e deixar a cabine limpa para meus filhos e netos.

Mas não são todos que me vêem jovem assim, como realmente sou. Na sala de embarque do aeroporto de Porto Seguro, uma menininha começou a brincar com a alça de minha mala, até ser interrompida pela bronca da mãe, que também acertou em mim:

-- Não mexa aí que o vovô não gosta.



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E a gorjeta, doutor?

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