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Em um debate na WideBiz sobre as tendências, o seguir gurus, radicalismos e coisas do tipo, o Boris Saprudsky fez alguns comentários bem equilibrados:

>As tendências apontadas podem até ser as corretas, mas são tendências, não
>realidades. Elas puxarão, entortarão a realidade do mercado na sua
>direção, como um imã, uma bússola, mas não haverá a conversão em massa.
>Existem ainda muitos degraus na escada que liga o HOJE do mercado ao "será
>assim" destas tendências.


Por isso aproveitei o gancho para viajar no passado. Tenho um passado de radicalismos. Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos, quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.

Quando todos na faculdade de arquitetura de Santos preparavam um trabalho de graduação (78/79) de grandes mausoléus de vidro e aço, o meu era um projeto de assentamento rural para sem-terra (ninguém nem usava esse termo na época -- eu os chamei de posseiros no trabalho).

Para conseguir obter informações sobre solo-cimento, energia eólica, energia solar, biogás, biomassa, indústrias alternativas, etc., passei por um complicadíssimo processo no Banco do Brasil para comprar dólares para importar livros (não tinha Internet e essa informação só existia no exterior).

No dia da apresentação metade da faculdade queria ver quem era o louco que ia apresentar um projeto onde as casas eram de solo-cimento, cobertas de palha e lascas de madeira, e o gás do esgoto voltava para o fogão da cozinha.

Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Por isso em 79 parti numa kombi cheia de tralhas para morar no mato, Alto Paraíso de Goiás. Recém casados, macrobióticos e achando que iríamos mudar o mundo, morando no mato, ensinando em escolas rurais, comendo arroz integral com ban-cha e fazendo medicina natural.

Minha incursão em movimentos estudantis tinha durado uma reunião, onde a líder (que ia à faculdade de boininha com estrelinha vermelha) pregava a violência (eu era do deixa disso). Depois de formada ela abriu uma boutique de alta moda em SP (sem boininha, e roupas só para estrelinhas). Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens.

De uma juventude de radicalismos, aprendi a não seguir gurus. Admirá-los às vezes, mas nunca seguir homens cegamente. Meu livro de cabeceira era Small is Beautiful, um best seller na época, hoje esquecido (deve existir algo aí na rede). Do radical filtrado, muita coisa permanece hoje incorporada ao nosso dia a dia, sem percebermos que um dia alguém calou suas baionetas para defender essas idéias com a vida.

Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não, você diz que depois deles não apareceu mais ninguém.

Você pode até dizer que eu tô por fora ou então que eu tô inventando, mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem. É evidente que muitas das tendências preconizadas pelos gurus de hoje serão realidade no futuro. Nem todas, como nem todos os gurus estarão com a razão.

Quando entrevistei Kevin Kelly, autor de "New Rules for the New Economy", ele apostava em uma nova forma de "grande empresa" na rede. Veja a entrevista aqui.

Mario Persona: Se a turbulência acaba sendo a norma, você acredita que não exista muito futuro para as grandes empresas incapazes de acompanhar a velocidade das mudanças?

Kevin Kelly: Não, o que acredito é que existe abundância de novos espaços. Mas teremos muitas grandes empresas, de uma diferente forma de ser grande. Grande continua a ser uma necessidade para tornar eficiente tudo aquilo que funciona. O "grande" não está fadado ao desaparecimento.

Kevin Kelly: Como já disse, não acredito que o "Grande" esteja fadado ao desaparecimento. A consolidação é algo muito natural em redes, pois o que se deseja são grandes redes, e quanto maior melhor. (Este é o efeito "N ao quadrado", ou a lei de Metacalf). Acho que podemos esperar por uma consolidação cada vez maior dos conceitos existentes; na verdade este é um bom lugar para se apostar. Mas à medida que essa consolidação vai acontecendo, novos impérios do caos estão sendo criados (Napster, por exemplo) onde levará anos até que uma consolidação faça sentido.


Ele deve considerar suas idéias válidas ainda, pois publicou um link para a entrevista em seu site . O que muita gente hoje profetiza como novidade e "guruismo", já estava no "Out of Control" de Kevin Kelly, publicado em 1994.

O que ele pensou é válido, o que ele pensa é válido, o que outros autores estão apostando é válido, se tomarmos tudo com uma mente investigativa, e não com uma mentalidade discipular. Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa guardado por Deus contando o vil metal.

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