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Encantamento

O apito do navio é de tirar o fôlego. Forte, grave, resoluto. Um momento mágico. Ser embalado por aquele gigante de aço, enquanto a cidade encolhe no horizonte, traz um misto de fragilidade e poder. Sou um príncipe e o conto de fadas agora é aqui. Será que aquilo ali é um sapatinho de cristal? A fantasia está só começando.

Cercados de espelhos e cortesias, os passageiros se sentem contemplados com uma dignidade que a vida diária costuma lhes negar. Desdobram-se em mesuras nos corredores e elevadores, todos limpos, lindos e polidos, como o corrimão dourado das escadas que levam aos andares-surpresa daquele palácio.

O ambiente tem um papel essencial no encantamento, seja num navio, shopping ou botequim. Mas qualidade, eficiência e perfeição não bastam. Enquanto o botequim fica cheio de gente que precisa escolher o lado limpo do copo, o barzinho chique fica vazio. Ambiente não é soma de características, é conjunção.

Coloque duas mil pessoas confinadas num navio, com uma decoração de um luxo que beira a breguice, e você satisfaz um espectro que vai do chinelão ao cromo alemão. Entuche comida às arrobas, esconda a balança e crie danças comandadas, e uma legião de glutões dormentes e obedientes vão sorrir contentes. O que essa conjunção tem a ver com você? Tudo.

Alimente bem seu cliente e você terá um exemplar dócil à sua frente. De pedidos de noivado a jantares de negócios, o encantamento à mesa quebra a resistência, a bebida amortece e a sobremesa dociliza na hora de acatar a proposta. Só não coma mais do que o outro, ou o dócil será você.

A equipe também é importante no encantamento. No navio, os cargos culinários têm sotaque italiano, as dançarinas soam argentinas e as mesas são servidas por gentis orientais. Experimente trocar por britânicos, alemães e franceses, nesta ordem, para ver se funciona. Enquanto isso, os passageiros são assados no deck ao som de Ivete Sangalo, porque ritmo é importante.

O ritmo embala e seduz, e não é à toa que uso o truque das três palavras em meus textos. "Forte, grave e resoluto". Todos nós temos um relógio interno e funcionamos melhor com ritmo, tanto para estimular como para ninar.

Shakespeare escrevia no compasso do coração. As rimas trissilábicas do primeiro livro infantil do Dr. Seuss foram escritas no porão de um navio no ritmo dos pistões. Roberto Menescal tentava dar partida num barquinho à deriva na Baía de Guanabara e o motor só fazia "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá..." e morria. Enquanto era rebocado para a praia, Menescal transformava aquele "Tá-tá-tá-tá... Tá-tá-tá-tá" na melodia de "Di-a-de-luz... fes-ta-de-sol..."

Recapitulando: Um misto de fragilidade, para se deixar levar, e poderio para achar que está levando. Uma dignidade real que a vida costuma negar. Uma conjunção de fatores que satisfaça um amplo espectro de desejos. Deleite físico e mental para desarmar e docilizar. Serviços com os sotaques que os clientes esperam que tenham. E ritmo, muito ritmo, trazendo todos sob a batuta de um maestro invisível.

A cena muda...

Estou agora em um salão enorme. Duas mil pessoas com suas malas desembarcadas se digladiam para sair por uma porta estreita. A sensação é de pasta de dente. Esqueço a pasta quando sinto o bafo quente e barulhento do cais. Logo adiante uma mulher agarra o companheiro pelo colarinho e senta a mão em sua cara. Será que pegou o marido com a mala da outra?

Depois de morar na fila do táxi, chega a vez do casal à minha frente bater boca com o taxista que cobra preço fixo e não vai pelo taxímetro. Quem passou uma semana tomando cerveja em dólar, agora discute por uma diferença do tamanho de uma latinha. Pego o táxi que o casal recusou e pergunto ao motorista se aquela balbúrdia no desembarque é normal.

-- O senhor não viu nada. Semana passada duas mulheres saíram no tapa por causa de um lugar na fila. Coisa feia, de arrancar cabelo e pele na unha. Foi preciso apartar.

Enquanto o carro dribla o trânsito para escapar do cais, olho para trás. O navio não está mais lá. Em seu lugar há uma imensa abóbora. A fantasia acabou. O sapato de cristal desapareceu de minhas mãos.

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Se Disney Administrasse Seu Hospital: 9 1/2 Coisas que Você Mudaria - Fred Lee
Livro obrigatório para quem trabalha com serviços. Fred Lee reuniu sua experiência como executivo em hospitais e uma passagem pelas organizações Disney para mostrar que o atendimento atencioso e singular gera lealdade e admiração pelas empresas capazes de prestá-lo.
Editora: Artmed
Autor: FRED LEE
ISBN: 9788577803705
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 212
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



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E a gorjeta, doutor?

Incontestavel contexto

Meu neurologista ligou para dar duas notícias. Boas ou más? Depende. A primeira foi que eu não tenho nada na cabeça. A segunda, que leu algo sobre mim em algum lugar. Ouvir que não tenho nada na cabeça ou saber que meu nome saiu em algum lugar não é suficiente. Preciso conhecer o contexto.

Se eu fosse laranja de alguém e me dissessem que meu nome apareceu no jornal, não ficaria contente, mas apreensivo. Se fosse outro que me dissesse que não tenho nada na cabeça eu ficaria ofendido. Mas como veio do neurologista, de quem eu aguardava o resultado de um exame, que também diz que viu uma citação minha em um livro de marketing médico, já posso soltar rojão.

Conhecer o contexto é vital na comunicação, pois nunca sabemos o que uma partícula de nossa mensagem pode causar quando atinge um contexto desconhecido. Hoje, por exemplo, recebi um e-mail de um que não é meu neurologista, mas quis dar uma segunda opinião:

"Fico abismado com a cultura acima do normal e o conhecimento que o senhor tem. Mas fico mais triste em saber que o senhor não tem foco em sua vida. Aparentemente, salvo melhor juízo, o senhor é um oportunista, 'chavequista' e aproveitador de mentes. Sua administração cerebral não é das mais honestas."

Meu dicionário não tem "chavequista", mas tem "xaveco", que é "comportamento imoral, criminoso e cínico". Será que algo que eu escrevi gerou aquela reação por causa do contexto ou do mérito da questão? É comum alguém que só viu o rabo do elefante achar que o animal seja um pincel.

Alguém mal informado pode querer agradar outro que pegou febre amarela com o elogio: "bonita cor". Alguns, com filhos pequenos no contexto moral de sua sala, podem querer a censura de programas carregados de sexo, dinheiro e poder. Outros podem nem ligar que seus pequenos assistam à sessão da tarde da TV Senado em lugar do desenho animado.

O contexto também muda com o passar do tempo. Em 1903 dois obscuros mecânicos de bicicletas de sobrenome Wright fizeram um vôo secreto e o jornal de sua cidade natal, o Dayton Daily News, noticiou assim:

"RAPAZES DE DAYTON EMULAM O GRANDE SANTOS-DUMONT"

Como vocabulário também cria contexto, algum leitor menos versado pode achar que os irmãos Wright chamaram Santos-Dumont de ‘mula’. Nada disso. O jornal disse que eles 'imitaram' "o grande Santos-Dumont".

Grande Santos-Dumont? Num jornal americano? Sim, o jornal achou que o vôo secreto tinha sido em um dirigível, e na época todo mundo sabia que o milionário brasileiro que vivia em Paris e não perdia uma festa no Castelo de Caras era o Ayrton Senna dos dirigíveis.

Se perguntar hoje a um repórter do mesmo jornal é capaz de receber um "Santos-Quem?" como resposta. É que agora até a versão americana da enciclopédia Encarta traz os irmãos Wright como inventores do avião e Santos-Dumont como... ué, devia estar por aqui...

Não sei o que diz a versão brasileira, mas sei que a Microsoft criou diferentes versões para agradar a gregos, troianos e italianos. Nesta última o inventor do telefone é Antonio Meucci, e não o Graham Bell da versão americana. Enquanto na americana Thomas Edison inventa a lâmpada só, na versão britânica ele ganha um coadjuvante, o britânico Joseph Swan.

A Microsoft sabe que se não levar em conta o contexto do cliente ele descarta sua Encarta. O mesmo acontece na comunicação. Se o que eu disser não encontrar um par no contexto do universo de meu interlocutor, cuspi palavras ao vento. Aconteceu comigo esta semana.

Quando vi, de primeira mão, meu sexto livro numa vitrine, não resisti. Comprei um. Na hora de pagar, meu ego me garantiu que era impossível um escritor como eu não fazer parte do contexto de um funcionário de livraria. Por isso, para brincar, perguntei ao rapaz se o livro era bom, achando que ele me reconheceria pelo nome no cartão.

Não sei por que ainda escuto meu ego. A resposta do rapaz me fez ver que eu ainda não fazia parte de seu contexto.

-- Não conheço o autor. Mas o livro deve ser bom, porque o prefácio é do Max Gehringer. Os livros dele eu li e são bons.



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E a gorjeta, doutor?

Susan Boyle e o elo perdido

Das duas, uma: ou aquela figura neandertalesca, de cabelos desgrenhados e olhos miúdos entre sobrancelhas cerradas e maçãs salientes, é uma pegadinha, ou o programa "Britain's Got Talent" acaba de encontrar o elo perdido.


http://www.youtube.com/watch?v=z1qSYP-dsZM

Das duas, nenhuma. Aquela caricatura de mulher é Susan Boyle e sua presença no palco abre um tonel de zombarias. Quando Susan revela seu sonho de ser cantora profissional, como Elaine Paige a canadense Ellen Page, com metade da sua idade e um terço do seu peso*, a plateia debocha.

No júri, a atriz Amanda Holden, emoldurada pelo cético Piers Morgan e pelo acético Simon Cowell, se esforça para fazer cara neutra de paisagem, mas seu belo rosto parece dizer: "Isso vai ser divertido". Pelo menos até a voz de Susan acentar os primeiros acordes de "I dreamed a dream". Aí o queixo de Amanda cai, literalmente.

A platéia vai ao delírio. Em poucos dias Susan Boyle é vista mais de cem milhões de vezes no Youtube e muito mais na mídia global. O título da obra de Victor Hugo, "Os miseráveis", que a canção evoca é emblemático.

Susan Boyle é uma miserável cantando para miseráveis. Feia, deficiente e sem jamais ter tido um namorado, ela é tudo aquilo que nenhum de nós gostaria de ser, mas somos. Quando começa a cantar, porém, até Amanda Holden quer ser Susan. Ela aplaude de pé, e o jogo de câmeras contrasta o seu corpo esguio com a silhueta de canhão que ribomba no palco.

Talvez o correto não seja dizer que 'somos' miseráveis, mas sim que 'estamos' miseráveis, do mesmo modo que hoje Susan 'está' feia e Amanda 'está' linda. Em cinquenta anos o corpo de Amanda, hoje sensual, também será canhão, e sua pele, agora de pêssego, se transformará num maracujá de gaveta. Os miseráveis no júri e na plateia aplaudem porque torcem por Susan e por si mesmos, igualmente carentes de amor e perfeição, ainda que sob diferentes camadas cosméticas.

Estranho ser, esse humano! Almejamos padrões de bondade, justiça e beleza que sempre estão muito acima do que podemos alcançar. De onde será que vem isso? Vivemos na terra, mas de olho nas estrelas, porque trazemos em nós um sentimento de infinitude. É como se Deus tivesse plantado a eternidade em nossos corações. Se é que não plantou.

O paradoxo, porém, é que esse mesmo humano, capaz de proezas do talento e do pensamento infinitamente superiores a qualquer outro ser vivo, também é capaz de atrocidades nunca vistas na mais medonha fera irracional. Matamos nossos filhos para comê-los no jantar, mas também criamos um número infinito de filigranas a partir das mesmas e perfeitas sete notas musicais, como Susan faz no palco.

E ao cantar, ela nos lembra de que existe no humano uma dignidade além do que aparentamos ser. Trata-se do sopro divino, algo que nenhum animal recebeu. Por isso Deus não desistiu de sua criação e quis Se revelar em humanidade numa Pessoa perfeita, Jesus, ainda que miserável em sua tez exterior.

É por isso que torcemos por Susan Boyle, como quem torce pela Fera da Bela, pelo Corcunda de Notre Dame e pelo Frodo dos pés peludos de "O Senhor dos Anéis", vivendo sob a contínua tentação do anel. Nós nos identificamos com heróis fracassados porque acreditamos que ainda podemos ser amados, resgatados e transformados desta miserável condição. É como se sentíssemos saudade do Paraíso.

Susan Boyle não é o elo perdido. Ela apenas revelou que o elo existe, mas não com algum símio ancestral. Sob aquela semelhança feia, miserável e transitória foi possível ver um ser criado à imagem de Deus. Quem estava no palco não era uma pessoa estranha. Naquele palco eu vi a mim mesmo, como Deus me vê e me ama. E também vi você.

"Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido". 1 Coríntios 13:12



*Errata: Ao contrário do que eu e milhares de sites e blogs disseram, Susan Boyle é fã de Elaine Paige e não de Ellen Page. O sotaque escocês dela me confundiu.

Assista no site do programa Britain's Got Talent a versão completa do programa com Susan Boyle.

Assista aqui a versão legendada em português.



Les misérables
Versão de Cláudio Botelho para a peça no Brasil

Já houve um tempo de homens bons
De palavras gentis
E de vozes mansas.

Já houve um tempo de outros tons
E de tantas canções
E de tantas lembranças
E tanto mais
Que já não há.

Eu tinha um sonho pra viver
Um sonho cheio de esperança
De que um amor não vai morrer
E deus perdoa e não se cansa
Eu era forte e sem temor
E os sonhos eram de verdade
Não tinham preço nem valor,
Canções e sons pela cidade.

Mas a noite então caiu
E na noite tantas feras
Me rasgaram o coração
E tudo aquilo que eu sonhei.

Foi num verão que surgiu
Me oferecendo a primavera
Me prometeu mas não cumpriu,
Pois foi embora e eu fiquei.

E hoje eu sonho que vem
E nos seus braços eu me entrego.

Mas sei que é sonho e nada além
Dos velhos sonhos que eu carrego.

Eu tinha um sonho pra viver
Mas eis que a vida foi mais forte
E de repente eu acordei
Mataram tudo o que eu sonhei.


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A Fé na Era do Ceticismo - Timothy Keller
Apesar de uma minoria continuar a atacar a fé cristã, para a maioria das pessoas, a fé ocupa uma grande parte de suas vidas. Durante anos, Tim Keller formulou uma lista das dúvidas mais freqüentes dos céticos que freqüentam sua igreja em Manhattan. Em The Reason for God, ele destrincha e explica cada uma delas. Pensando nos ateus, agnósticos e céticos, Keller também construiu um pilar contra o qual os verdadeiros fiéis podem se apoiar quando forem bombardeados pelos que contestam sua fé. Por que há tanto sofrimento no mundo? Como pode um Deus amoroso deixar seus filhos irem para o inferno? Um Deus cristão não deveria ser um Deus de amor. The Reason for God vai ao cerne dessa questão religiosa e aponta o verdadeiro caminho e objetivo do Cristianismo.

Editora: Campus
Autor: TIMOTHY KELLER
ISBN: 9788535231045
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 300
Acabamento: Brochura
Formato: Médio




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E a gorjeta, doutor?

Rabo de tatu

Aquele participante do treinamento de oratória certamente conquistou a atenção de todos. Na hora do exercício prático, foi à frente e contou seu “causo” no melhor estilo sertanejo. Mas ele jurava que era verdade.

“Em minha chácara, perto da casa, mora um tatu. Ele costumava passear fora da toca sem se preocupar conosco, até conhecer nossa nova cadelinha. Foi tudo muito rápido. Antes de conseguir voltar para a toca, o tatu já estava preso pelo rabo. Corri lá e segurei o rabo da cadelinha, que estava sendo arrastada para a toca pelo tatu. Senti-me um idiota ali, sentado no chão segurando o rabo da cadela que mordia o rabo do outro animal, até o tatu conseguir se livrar e correr para a toca”.
 

Aerosafari

Estou num dilema. Minha passagem aérea diz "Apresente-se em nosso check-in com 1 hora de antecedência" e nem imagino quando é isso. Nunca sei, e olha que tenho viajado um bocado. Se reclamo dos atrasos? Sim e não.

Se o atraso me fizer perder um compromisso, é claro que vou odiar. Felizmente até hoje só tive um ou dois "quase". Fora isso, minha opção pelo humor -- sim, é uma opção que mais gente deveria fazer -- me ajuda a desfrutar das longas estadias aeroviárias. Aprendi a relaxar, o que não é muito, mas já representa 50% das atividades sugeridas pelo Ministério do Turismo para quem viaja de avião.

Aproveito para ler, escrever, cortar o cabelo, engraxar os sapatos, assistir TV, tomar café, almoçar ou jantar, às vezes tudo no mesmo dia. Mas nenhuma dessas atividades se compara ao aerosafari. Não tem gente que se embrenha nas florestas para observar a vida selvagem? Eu faço isso nos aeroportos.

É inacreditável quanta coisa esquisita você vê ali. Com a invenção do celular, então, a coisa ficou ainda mais pitoresca. Se estiver numa sala de espera em um dos primeiros vôos da manhã para alguma capital, esqueça ler ou fazer palavras cruzadas. A falação é demais.

Sinto-me numa Bolsa de Valores. Outro dia tinha um chinês caminhando de um lado para o outro berrando sempre as mesmas coisas, cada vez mais alto. Não sei mandarim, mas deduzi que seu interlocutor também não devia saber.

Nunca entendi por que os homens telefonam andando e as mulheres sentadas. Alguns só conseguem falar de olhos fechados, desenhando no chão com a ponta do pé ou gesticulando para explicar tamanhos e formatos das coisas. Para quem costuma falar com as mãos já existe a opção do celular auricular. Ótimo também para quem costuma falar sozinho e quer disfarçar.

Conversas truncadas aqui e ali servem para eu brincar de quebra-cabeça mental. Como elas nunca têm fim nem começo, sinto-me assistindo a um filme "cult", desses que todo mundo se esforça para fazer cara de quem entendeu.

Mas não é só na espera que dá para relaxar. O embarque também tem seu lado pitoresco. Após um dia inteiro esperando um embarque que só veio à noite, entrei no avião atrás de uma mulher estourando de grávida. Pela tensão do vestido calculei que seu vôo devia estar atrasado desde o segundo ou terceiro mês. Não resisti perguntar à comissária, que sorria na porta:

-- Se nascer agora ela precisa voltar ao guichê e comprar mais uma passagem?

Em outro vôo arrepiei com o despreparo do funcionário. Entrou correndo na cabine com uma mochila na mão, anunciando:

-- Alguém esqueceu na sala de embarque?

Ninguém. Se fosse a bomba que os avisos nos aeroportos dizem para a gente não mexer, eu teria visto uma versão moderna do Cavalo de Tróia. Minha última visão.

Não basta decolar para a diversão acabar. Divirto-me com os sotaques e expressões de gente de todas as cores, línguas e sabores viajando naquela panela de pressão cultural. Outro dia ouvi um passageiro responder a outro, que perguntou de sua bagagem:

-- Amigo, do jeito que as coisas estão difíceis, minha mala é um saco e o cadeado é um nó!

Mas nem todas as expressões têm graça. Antes de atingirmos a altitude de cruzeiro, o comandante escolheu uma expressão das mais infelizes para anunciar isso:

-- Nossa altitude no momento é de 30 mil pés e dentro de alguns minutos estaremos batendo nos 36 mil.

Geralmente não me preocupo com a possibilidade de acidente ou pane no avião, pois ainda é o meio de transporte mais seguro que existe, quando existe. Meu receio fica guardado para o táxi da última etapa da viagem. Mas confesso que uma vez fiquei preocupado sim.

Foi em uma escala em Brasília, onde embarcou um jovem que chamou minha atenção. Não pude deixar de pensar no pior, mesmo sabendo que o mais provável era que ele estivesse a caminho de alguma competição. Parado no corredor ao meu lado, afastou algumas maletas no bagageiro para caber sua mochila, e virou de costas para mim para tirá-la. Foi quando percebi que aquilo não era mochila. Era um pára-quedas.



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E a gorjeta, doutor?

O saco grande

Dois sacos, é o que você encontra em algumas companhias aéreas. Um pequeno, para grandes indisposições, e um grande para pequenas disposições. Neste somos convidados a dispor do lixo, quando as comissárias o arrastam pelo corredor, anunciando: "Vamos recolher copos, papéis e jornais, para que os passageiros que aqui embarcarem encontrem a cabine limpa e arrumada".

Acho ótimo, pois também não gosto de encontrar lixo dos outros. Exemplos? Surpresa no vaso sanitário, cabelo no pente e elevador fedido, denunciando que alguém passou por ali sem respeitar quem vinha depois. Casos mais graves incluem a descoberta tardia de um porta-papel só com o osso do papel higiênico, aquele tubinho extremamente desconfortável e pouco absorvente.

Pensei nisso ao ser convidado para uma série de palestras sobre aquecimento global, um assunto que não parecia tão escabroso em meus tempos de bicho-grilo. Acho que só faltou você para eu contar que fui ativista ecológico nos tempos de faculdade. Tão radical, que saí de lá direto para morar três anos no mato em busca de uma forma de salvar o planeta. Já deve ter reparado que não encontrei.

Meu trabalho de conclusão do curso de arquitetura e urbanismo foi o projeto de uma comunidade agrícola usando tecnologias alternativas e recursos renováveis. Na época a colocação daquelas idéias em prática esbarrava em 4,5 bilhões de problemas, número que hoje atinge os 6,5 bilhões.

Não há nada de errado com o planeta. O problema está com as pessoas que moram nele. Estou cada vez mais convencido de que preciso ajudar as comissárias a passarem o saco grande e deixar a cabine limpa para os passageiros que embarcarem depois que eu embarcar. Estou aqui apenas pensando em voz alta o que já faço e ainda preciso fazer.

Já reduzi o consumo de carne vermelha há algum tempo e meu próximo carro será movido a álcool. Combustíveis fósseis e pum de ruminantes são dois grandes responsáveis pelo aquecimento global, o segundo respondendo por 25% do problema. Além disso, a produção de um quilo de carne exige 15 mil litros de água. Quando alguém disser que a vaca foi pro brejo pode acreditar que o brejo vai secar.

Também venho usando o mínimo de toalhas de papel em banheiros públicos e já caminho até o varejão perto de casa munido de duas velhas sacolas de ráfia, para evitar colocar em sacolinhas as frutas e verduras já ensacadas. Além disso, dou preferência a produtos orgânicos, embalagens recicláveis e equipamentos com selo "energy saver".

Mesmo assim vou continuar com a consciência pesada pelas constantes viagens de avião, o Cascão dos ares. Tomara que as empresas parem de fazer eventos longe da sede, assim menos gente precisa viajar e eu não preciso cruzar o país para falar a pessoas que moram do outro lado de minha rua.

Sei que minha ajuda é uma gota no oceano, mas o oceano não é feito de gotas? Em "O homem que plantava árvores" Jean Giono conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas que transforma um desolado vale em exuberante floresta enfiando sementinhas no solo com seu cajado enquanto pastoreia. No processo ele muda de profissão para evitar que as ovelhas prejudiquem as árvores novas. Vira criador de abelhas.

Embora seja uma obra de ficção, a vida imita a arte pelas mãos de pessoas como Abdul Karim, que criou uma floresta na Índia usando o método de Bouffier, e Wangari Maathai, Prêmio Nobel de 2004 e fundadora do Greenbelt Movement, que plantou 30 milhões de árvores para recuperar o meio-ambiente do Quênia.

Se você acha que coisas pequenas são insignificantes, pense nos emergentes da China que resolveram substituir os velhos pauzinhos laváveis pelos modernos hashis descartáveis. No ano passado 450 bilhões deles foram produzidos às custas de 25 milhões de árvores. Será que alguém podia ir até lá avisar que já inventaram o garfo?

Pode parecer bobagem me preocupar com isso, já que com a minha idade não falta muito para atingir a marca da longevidade do brasileiro. Embora sinta pena de meus amigos de infância -- você não imagina o quanto eles envelheceram! -- sinto-me jovem o suficiente para ajudar a passar o saco grande e deixar a cabine limpa para meus filhos e netos.

Mas não são todos que me vêem jovem assim, como realmente sou. Na sala de embarque do aeroporto de Porto Seguro, uma menininha começou a brincar com a alça de minha mala, até ser interrompida pela bronca da mãe, que também acertou em mim:

-- Não mexa aí que o vovô não gosta.



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E a gorjeta, doutor?

Uma palavra so

Um frio percorreu minha espinha ao receber nos braços aquele volume peso-pena. Peso e pena foram também os sentimentos que se aninharam em meu peito enquanto meu cérebro parava de funcionar, como não devia estar funcionando quando tomei aquela decisão.

A idéia da adoção havia brotado nos inescrutáveis recônditos da fé e do coração, um universo à parte da razão. Teria feito a coisa certa? Agora já não importava. O que recebia não era um vasilhame retornável, mas um ser humano nem um pouco descartável.

Olhei para aqueles quatro anos de criança acondicionados num corpinho esquálido que não aparentava mais do que um ou dois. Pedro não falava e os médicos apostavam que nunca seria capaz de falar. Tampouco seria capaz de andar ou coordenar seus movimentos com precisão. Pedro sofria de paralisia cerebral.

Suas deficiências lhe impediam de se comunicar e os únicos estímulos que chegavam ao seu cérebro vinham dos quatro sentidos que restavam, pois também nascera cego. Sua chegada em 1986 foi um marco em meu processo de aprendizado de comunicação. Sim, seria eu quem iria aprender a me comunicar.

Quem acredita ter algo a comunicar deve dar o primeiro passo, que é aprender tudo sobre o alvo de sua comunicação. Comunicação nada mais é do que comunicar uma ação, ou fazer com que nosso interlocutor interprete e responda a um estímulo. Porém, para obter essa resposta é preciso desenvolver uma percepção capaz de interpretar corretamente o outro, o que não se faz sem envolvimento e dedicação.

O primeiro passo no desenvolvimento da percepção é abrir mão dos preconceitos e filtros que vamos ganhando à medida que os anos passam. É preciso rever nossa capacidade de perceber o mundo exterior e interagir com ele. Os estímulos que acontecem ao nosso redor -- luz, sons, cores, texturas -- não passam de estímulos. Os efeitos reais dependem de como os recebemos, interpretamos e reagimos a eles.

Postura, expressões, entonação, gestos, olhares -- tudo isso também comunica e têm um peso enorme no sucesso de uma conexão que crie uma freqüência comum aos interlocutores. Essa freqüência comum, ou rapport, permite criar uma relação de sincronismo e equilíbrio na comunicação entre duas pessoas com diferentes capacidades de recepção e interpretação de estímulos. Algo como fazer um telégrafo se comunicar com um celular.

Quando me encontrei diante do desafio de me comunicar com uma criança com múltiplas lesões precisei entender que diferenças nem sempre são deficiências. Para quem nasceu de um jeito, diferente é o outro. Provavelmente era essa a impressão que meu recém chegado filho tinha de sua nova família. Vivíamos em mundos diferentes e seria preciso construir, pouco a pouco, a ponte da comunicação entre nós.

Eu precisava descobrir como fazer essa conexão e me comunicar com uma criança que durante três anos fora privada de qualquer estímulo, presa a uma cama de maus tratos em um barraco qualquer. Nos mais de vinte anos que se passaram desde então Pedro tem sido meu melhor professor de comunicação, embora até hoje ele só tenha aprendido a falar uma palavra. E não fui eu quem ensinou.

Não se iluda que uma boa comunicação possa ser garantida por fórmulas de sucesso ou títulos acadêmicos. São seres humanos que se comunicam e nessa área nem tudo é aprendido nas universidades. Criatividade, imaginação e intuição são habilidades naturais que fazem parte do processo, como aprendi com o que aconteceu com meu filho no aprendizado da única palavra de seu vocabulário.

Embora profissionais especializados tenham tentado, a única pessoa que conseguiu lhe ensinar essa única palavra foi dona Ângela, uma faxineira que trabalhou em casa por alguns meses. Ela nunca soube o significado da palavra rapport, jamais cursou uma faculdade e mal sabia o português, mas foi capaz de abrir caminho para uma comunicação falada de mão dupla, ainda que limitada a um único verbo.

Seu método foi tão simples e ingênuo quanto deve ser qualquer método que busque encantar as pessoas. Ela simplesmente frisava muito bem que iria "cantar", e começava:

"Atirei um pau no gato-tô, mas o gato-tô...".

Pedro ficava extasiado, batia palmas, gritava, gargalhava e sacudia o corpo para frente e para trás, como sempre faz quando está alegre.

A palavra "cantar" ficou de tal forma impressa em sua mente com tintas de amor, carinho e afeição, que até hoje ele é capaz de pedir para alguém cantar usando uma forma só sua: "antá". Por isso em casa, se você ouvir alguém cantando "Atirei um pau no gato-tô...", isso só pode significar uma coisa: Pedro falou.



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E a gorjeta, doutor?

Segunda mae

From: "Zig Zoing" - zig.zoing@outerspacemail.com
To: contato@mariopersona.com.br
Subject: Welcome!
Date: Fri, 08 May 2007 17:33:11 -0500

Prezado Mario,

Você não me conhece, mas não terá dificuldade para ler este e-mail. Está em inglês que, por ser um idioma universal, é falado aqui também. Moro no planeta que vocês acabam de descobrir, o qual batizaram de Gliese 581c.

Ficamos muito entusiasmados com a descoberta e com os planos de virem morar aqui. É uma grande honra chamarem nosso planeta de “Nova Terra”. Podem vir, pois espaço é o que não falta.

Soubemos que chamam o planeta de vocês carinhosamente de “Mãe Terra”, portanto não há melhor ocasião do que o “Dia das Mães” daí para este primeiro contato. Queremos que façam com nossa mãe o mesmo que fizeram com a de vocês.

Mal podemos esperar para desfrutar de todos os avanços que introduziram na Terra. Transformaram um planeta primitivo e selvagem em um exemplo de civilização. Vocês são, com certeza, os seres mais avançados do universo.

Queremos que nos ensinem a mudar a cor de nosso planeta, como fizeram com a Terra. Pelo telescópio dá para ver que o resultado ficou super chique: céus em vários tons de cinza, rios que vão do vermelho ao turquesa e praias negras como petróleo. Como conseguem cobrir seus rios de espuma e pintar os pássaros marinhos da mesma cor que pintaram as praias?

A técnica de demolição de velhos edifícios também nos impressiona. É verdade que um homem apenas é capaz de demolir um edifício inteiro? Pelo jeito nem sempre um homem só resolve, não é mesmo? Soube que às vezes usam aviões para demolir prédios. A renovação urbana também é nossa prioridade.

Genial mesmo é aquela idéia de acabar com o gelo. Imagine que maravilha um mundo sem gelo, sem neve e sem inverno -- um mundo-verão! Adorei o nome do projeto: “Aquecimento Global”. Vocês criaram o projeto depois do desastre causado por um iceberg àquele navio... como era mesmo o nome? Titanic?

Esquentar um planeta inteiro deve dar um trabalho danado, não é mesmo? Tenho certeza de que irá compensar e mal podemos esperar para fazerem o mesmo aqui. A vida é melhor e mais saudável em um planeta-verão. Deve ser uma maravilha ter praias cheias o ano inteiro. Soube que já estão até produzindo ondas gigantescas para incrementar a prática do surfe.

Pelo telescópio dá para ver que construíram enormes ventiladores em torres instaladas na terra e no mar. É para refrescar os dias mais quentes? Pelo jeito estão funcionando bem, pois aumentou bastante o número daquelas lindas espirais brancas de vento que enxergamos daqui.

De todos os benefícios, nenhum supera o controle de pestes e ervas daninhas. Foi uma boa idéia eliminar as florestas, que escondem animais ferozes e répteis peçonhentos. Dá para ver que o projeto está quase concluído. Como conseguem acabar com tantos peixes perigosos de uma só vez? Esperamos que tragam essa tecnologia também.

Seu pessoal deve estar bastante otimista com a idéia de colonizar outro planeta e repetir aqui o sucesso que alcançaram na Terra. Já deu para perceber que vocês são empreendedores e tenho certeza de que logo transformarão nosso planeta em uma “Segunda Terra”, literalmente falando. E depois, quais os planos para o futuro?

Bem, pelo que tenho observado, vocês irão ajudar nosso planeta e depois partirão em busca de uma “Terceira Terra”, “Quarta Terra” e assim por diante. Vocês são competentes em tudo o que fazem. Outro dia encontrei na Internet uma passagem de um antigo livro daí que já previa essa tremenda capacidade de vocês:

“O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse o Senhor: Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer”.

Uau! Nada poderá impedir! Cara, acho que para vocês nem o céu é o limite, não é mesmo? O que posso dizer? Venham logo e já podem ir chamando nosso planeta de segunda mãe.

Atenciosamente,

Zig Zoing
zig.zoing@outerspacemail.com




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E a gorjeta, doutor?

O bebado e a equilibrista

Quando eu e outros participantes de um evento em Brasília fomos deixados no hotel, o check-in se deu em duas etapas. Primeiro o gerente distribuiu a tradicional ficha para preencher e depois um menu, enquanto anotava a escolha de cada um. Ingênuo, fiquei surpreso ao não encontrar peixes, massas, ou saladas naquele menu. Só carne.

Quando optei pelo jejum, tomei uma gelada do gerente e dos outros. Naquela época, turismo sexual era prática rotineira em grandes hotéis. Na recepção do hotel onde agora escrevo esta crônica há um aviso informando que a empresa é solidária com as medidas do governo de combate ao turismo sexual e à pedofilia. As coisas estão mudando. Sim, só na casquinha, mas estão.

Quando adolescente, fumar era, para os meninos, uma forma de afirmar a masculinidade. Para as meninas, o delicado bastonete equilibrado entre os dedos de uma mão levantada, o cotovelo apoiado no pulso da outra, e as argolas de fumaça fugindo de lábios de batom, formavam uma sensual imagem da sofisticação.

As páginas da “Seleções do Reader’s Digest” mostravam casais em trajes de gala fumando ao lado de uma limusine. Eram assim as propagandas e era perfeitamente natural uma revista dirigida à família promover o fumo.

Aí o cowboy teve câncer e o governo transformou a propaganda do tabaco em fumaça. No início as agências protestaram, os publicitários protestaram, os artistas protestaram. Com razão, pois o dinheiro iria secar e cada um queria defender o seu.

As agências tentaram ainda associar o risco de fumar ao risco gostoso dos esportes radicais, mas não durou. “Veja!”, diziam os anúncios para o subconsciente, “Eu também corro risco de morrer e estou ótimo!”. Hoje equilibristas e artistas olham em redor antes de acender. Vai que tem um papparazzi... Na defesa da imagem, vale até se abster.

Bebida e artista sempre andaram de mãos dadas, só que isso também parece que pode acabar. Com as estatísticas galopantes de crianças e adolescentes alcoólatras, no futuro é improvável que uma famosa rebole de copo na mão, se quiser evitar tomar uma gelada do público. Falsa moral? Não, olho no capital.

Por que você acha que grandes empresas investem em educação, saúde e empreendedorismo? Porque gente burra, doente e pobre não compra. Os jovens empreendedores serão os endinheirados de amanhã, com saúde para viver e comprar por cem anos e educação para querer produtos mais sofisticados. E caros.

Quando o governo decide banir o fumo ou mandar os artistas do bar de volta para a novela, está pensando em economizar com doenças respiratórias, cirroses e acidentes de trânsito. Quando dá as boas vindas à proliferação da religião e redução da promiscuidade, está de olho na conta do coquetel anti-HIV.

Se você acha que já viu tudo, aguarde para ver a gelada que vão tomar os atores de filmes explosivos de ação. Se não digitalizarem logo o fogo e a fumaça, Tom Cruise vai ter uma missão impossível para preservar sua imagem. É que hoje, na Califórnia, Hollywood já aparece em segundo lugar entre as indústrias que mais contribuem para o aquecimento global. Só perde para as refinarias de petróleo.

Antigamente algumas empreiteiras, nas obras que exigiam acampamentos de trabalhadores, mantinham um cafetão na folha de pagamento. Obviamente o cara tinha outro nome e função, algo como “responsável pela aquisição de válvulas de escape para peões”. Era também quem comprava e instalava lâmpadas vermelhas.

Para os peões de luxo -- executivos e clientes em grandes feiras e convenções -- a coisa não era diferente. A programação incluía casas noturnas e aqueles menus que não têm peixes, massas ou saladas. Isso está mudando.

Os stakeholders -- literalmente aqueles que seguram as estacas para manter a barraca em pé -- não querem ver sua marca no jornal de amanhã. Seria o maior barraco seu patrocinado morrer do coração debaixo de uma garota de programa ou ser preso com uma adolescente.

Imagem é dinheiro, e o mundo continuará assim: moralista quando interessar, e investindo em mísseis quando for para lucrar. Enquanto isso, equilibristas inteligentes deixarão de lado as garrafas e ficarão longe do bêbado, antes que seus stakeholders chutem o pau de sua barraca.

E não só eles, mas qualquer profissional que estiver preocupado com sua imagem evitará até mesmo aquela clássica limpeza de nariz no elevador. Lá dentro tem uma câmera e aqui fora tem um YouTube.



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E a gorjeta, doutor?

Yes, nos temos cana.

O Tio Sam veio aqui, chupou cana, escovou os dentes e assoviou de contente. Se antes o vizinho era o Canadá, agora vizinho é qualquer país onde cana dá. O Brasil se alvoroçou, Zé Carioca sambou e Carmem Miranda cantou: “Yes, nós temos cana!” O petróleo virou vilão.

E quem vai dizer que não? Monteiro Lobato quis defender o petróleo e pegou seis meses de cana. Mal sabia ele que um dia o país deixaria de lado “O Petróleo é Nosso” e adotaria o lema “Cana Para Todos”. A Polícia Federal já adotou e veja no que deu. Os canadólares apareceram mais rápido que os petrodólares.

Tirando os morros do Rio, onde a cana é difícil de pegar, a monocultura vai tomar de assalto nosso território. O Brasil vai ficar um verde só, do Oiapoque ao Chuí. Os ambientalistas que nos vigiam pelo Google Maps vão pensar que reflorestamos a nação. Mal sabem eles que o país do carnaval virou um canavial.

No interior de São Paulo, onde moro, “canaviar” é substantivo caipirês, mas aposto que vai virar verbo. Aqui está tudo canaviado. Se canaviar afeta a biodiversidade? Que biodiversidade? Aqui mel tem gosto de melado, teta de vaca dá garapa e passarinho voa em zigue-zague depois que bebe água que passarinho não bebia.

No resto do país tem gente preocupada porque o João vai canaviar a lavoura do feijão. Geralmente quem se preocupa não está na pele do João. Se estivesse, também iria para onde aponta o lucro imediato, pois é assim que funciona a economia. Nosso comportamento é ditado pela demanda.

Existe demanda por drogas, caça-níqueis e produtos piratas? Então a cana vai correr solta, enquanto cresce a indústria de seguros, blindagem e vigilância. Há demanda por combustível verde? Então a cana vai crescer solta, enquanto crescem as pesquisas, equipamentos e serviços de minimização do impacto ambiental.

Somos assim, vivemos correndo atrás do prejuízo porque buscamos satisfação imediata. O ser humano tem olhos na frente do crânio, como o felino predador e a ave de rapina. É essa sua natureza e vocação, daí viver remendando sua saga destrutiva.

Quem ainda acredita na evolução humana experimente ficar quinze minutos na Linha Vermelha no Rio meditando pela paz mundial. Em 1980 o Papa desfilou aqui em um papamóvel com carroceria anti-chuva. Em 2007 o papamóvel de 10 milhões de reais resiste a granadas e tiros de metralhadora e fuzil. O que evolui não é o homem, mas a tecnologia que nos mata e também garante nossa sobrevivência.

Sim, é inevitável que a cana substitua o arroz, o feijão e o bife, enquanto o álcool sobe no ranking das exportações, hoje encimado pelo minério, soja e brasileiros mandando dólares do exterior. O minério não é renovável e a soja dá também nos EUA. O jeito vai ser exportar álcool e brasileiros, não no mesmo vôo.

Não seremos os únicos em busca de alternativa. O Dubai sabe que seu petróleo tem data para terminar e corre para o turismo, enquanto o Bahrain corre para as corridas e outros esportes. Nós, quando a coisa aperta, corremos para a cana.

Mas o que será da vaca quando os pastos forem canaviados? Se depender dos relatórios da ONU, a vaca vai pro brejo. Vacas flatulentas são grandes vilãs do aquecimento global. Do escapamento que trazem sob o rabo saem mais poluentes que todas as emissões de carros e fábricas do mundo.

Complicou para os ativistas de botequim, que preferiam protestar contra a cana sem abrir mão do espetinho de carne e do provolone com cerveja. A cerveja fica, mas já tem gente correndo atrás de avestruz para substituir a vaca, o que não é tarefa fácil. Além disso, avestruz não dá leite.

A cana não corre e é mais flexível. Já inventaram até cana geneticamente modificada para canaviar pântanos e desertos. Não demora e a cana vai parar na mamadeira. Se os argentinos conseguiram criar vacas transgênicas que produzem insulina humana, e o nordeste já faz carne do bagaço do caju, o que nos impede de inventar um alambique leiteiro?

Tenho certeza de que os pesquisadores brasileiros encontrarão mais de 51 maneiras de utilizar a cana e os bebês do futuro já nascerão “flex”. Para quem a cana é uma ameaça, o jeito é encarar e mudar, não tentar evitar o inevitável. Até Monteiro Lobato, petrolista convicto, acabou desenvolvendo uma paixão secreta pela cana. Sua biografia revela que o escritor não saía de casa sem um belo pedaço de rapadura escondido no bolso do paletó.



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E a gorjeta, doutor?

Reforma ortografica

Prezado amigo: Circunflexo sobre meu notebook, fui surpreendido por seu e-mail e pelo comentário agudo com acento carioca que, diga-se de passagem, é consoante à sua crase. Você espera que eu trema de sua preposição? Pareceu-me ser essa a tônica do julgamento vogal que fez de minha decisão de adotar a nova ortografia.

Apesar de você tentar pontuar, com acentuado sarcasmo, minha adesão à reforma ortográfica, saiba que isso não me torna um entusiasta da causa. A reação normal, na minha idade, está mais para buscar outro tipo de reforma. Mas, como já não tenho reforma e nem estou reformado, adoto a nova ortografia como forma de garantir meu assento no mercado.

No fundo, o objetivo do acordo ortográfico é acabar com o excesso de letrinhas do português de Portugal. Para que fosse acordo, o Brasil acordou com mudanças mínimas, só pra português ver. O português, que trabalhava de facto, agora irá trabalhar de fato. A gravata permanece a mesma.

Qualquer um sabe que antes de reformar é preciso construir, algo que ainda não foi feito no Brasil e na maioria dos países que falam Camões. A reforma nem será percebida em muitas escolas onde "acento" ainda é sinônimo de cadeira. Vi uma professora de português, que ia se casar, convidar as amigas com um cartãozinho grafado "Chá de Conzinha". Pode apostar que professoras assim adotarão a nova ortografia e passarão a ensinar que o coletivo de aranhas é alcateia.

Para quem digita, as vantagens da nova ortografia são proporcionais aos acentos eliminados. Quantas vezes você precisou voltar ao "u" para colocar o trema? O corretor de meu Word vivia rindo da minha cara com seus lábios ondulados sob a palavra. Agora sou eu quem ri. Deixei o Word de lado e adotei o Writer do BrOffice, pelo menos até a Microsoft, corrigir seu corretor. O Bill Gates deve estar preocupadíssimo com minha decisão.

Não aguento você arguir que usamos pouco o antiquíssimo trema. Isso é consequência da obliquidade de seu julgamento exíguo de minha linguística. Ainda que eu enxágue meus textos da vã eloquência, até mesmo um delinquente, um alcaguete ou um equino sabe que é inexequível um texto sem trema na velha ortografia.

É inegável que a reforma movimentará o mercado para adaptar tudo e todos aos novos tempos ortográficos. A falta de informação criará situações inusitadas, como a da empresa que há alguns anos teve sua importação barrada por um funcionário da alfândega. A documentação, preenchida no exterior com caracteres não acentuados, indicava a importação de "macas", mas as caixas traziam "maçãs". Portanto, não se surpreenda se encontrar algum "adevogado" por aí querendo processar, por assédio sexual, quem entrar na secretaria. E também por agressão, se bater antes de entrar.

A eliminação dos acentos acentuará o ganho das agências de comunicação, que prestarão serviços de correção dos textos de seus clientes em sites e material impresso. Publicitários e gráficas ganharão com a reforma geral das embalagens de seus clientes. Ainda vamos ver embalagens de linguiça com "Zero Trema". E por que não, se até embalagem de água já traz "Zero Caloria"?

Ainda vamos ver na TV entrevistas com "especialistas" sobre os benefícios de se comer linguiça sem trema:

Entrevistadora: "Você acha que a venda de linguiça sem trema será obrigatória em nosso país?"


Entrevistado: "Bem, caso isso aconteça, o Brasil poderá importar o produto de Portugal até adaptar sua produção. Os portugueses sempre fabricaram linguiça sem trema".

A reforma ortográfica trará problemas para alguns segmentos na hora de vender seus produtos. É o caso dos fabricantes de para-raios. Aquilo que antes servia para parar os raios tornou-se um aliado deles. Os familiares de paraquedistas já não poderão processar o fabricante do equipamento que não abriu. Afinal, apenas a versão antiga tinha a função de parar quedas. A nova é feita para elas acontecerem.

Apesar de não saltar, me preocupo por viajar muito de avião, mas não pense que eu trema por isso. A reforma não irá afetar o software das aeronaves, que é escrito em inglês sem acentuação, evitando assim um "Bug do Milênio" só nosso, tipo "Bug do Português". O problema está na fila. Em um país onde o acesso a uma boa educação foi atropelado pelo acesso a um maior poder de compra, imagine as filas nos balcões das companhias aéreas, com as pessoas querendo saber se precisarão viajar de pé no voo que perdeu o acento.



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História da Língua Portuguesa - Paul Teyssier


Paul Teyssier, Professor da Universidade de Paris-Sorbonne, faz uma historia concisa, mas exemplar da língua portuguesa. Começando com a análise da evolução do latim até os primeiros textos escritos em galaico-português, Teyssier passa a considerar em seguida não só o português europeu contemporâneo como também o português falado no Brasil, na África e na Ásia.

Editora: Martins Fontes
Autor: PAUL TEYSSIER
ISBN: 9788533623859
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 152
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
E a gorjeta, doutor?

O principio da dadiva no networking

Mario Persona conversa consigo mesmo sobre um assunto bem presente: a dádiva. Esse favor imerecido que nada teimosamente contra a corrente do instinto humano é abordado da perspectiva do networking e do relacionamento com o cliente.


P. Fala-se muito em gerar relacionamentos, não só com clientes mas com qualquer pessoa. Como criar um relacionamento?

Um relacionamento você cria com base no princípio da dádiva. Quando você dá algo a alguém, ou faz algo por essa pessoa, você dá o primeiro passo que promove um relacionamento. Mas essa dádiva não pode ser condicional.

P. A dádiva não gera algum tipo de angústia em quem recebe?

Em um certo sentido sim. A dádiva cria uma responsabilidade em quem recebe. É claro que a primeira coisa que a dádiva gera é gratidão, que nós expressamos com a palavra "obrigado", que é uma espécie de vínculo, de amarra, que se traduz como uma obrigação de reciprocidade.

P. Quer dizer então que essa história de networking, de criar relacionamentos apenas pela troca de cartões não funciona? Um cartão não passa de um papel sem valor.

Bem, a troca de cartões pode levar ao princípio da dádiva, mas veja que quando falamos de valor, isso não significa necessariamente preço. Uma coisa pode não ter custo algum, como um cartão, mas ter um valor tão grande que a torna sem preço, impagável. Um cartão recebido, por exemplo, de uma pessoa influente pode ser interpretado como uma dádiva por abrir portas. Geralmente as dádivas mais caras são as que não têm preço.

P. E o que pode agregar valor à dádiva?

A necessidade de quem recebe, seu interesse por aquilo, as circunstâncias, o momento... várias coisas podem ajudar a criar valor. É interessante, mas parece que o valor das melhores dádivas está na aura emocional que a envolve. Um papel de bala, por exemplo, é lixo, mas se tiver sido dado pelo namorado ele vale ouro. A garota vai guardá-lo para sempre.

P. Então a essência do networking e do marketing de relacionamento não está na troca de cartões?

Isso, a mera troca de cartões está cercada de interesses de ganho, e carrega uma mensagem do tipo "compre de mim", "estou de olho no seu dinheiro", "pague e eu farei algo por você". O verdadeiro relacionamento começa com a iniciativa de dar de forma desinteressada, não de receber.

P. Qual o papel da emoção nesse contexto?

O clima emocional é muito importante. O momento, o cenário, o estado emocional, tudo isso funciona como um adesivo na memória do receptor da dádiva. Se você quiser criar um relacionamento, seja ele afetivo ou de negócios, é preciso pensar como um diretor de cinema, que usa som, imagem e comunicação para causar uma impressão permanente no espectador.

A dádiva não termina no ato de dar. É necessário você obter o feedback disso, medir as reações, os sentimentos. Se você precisou botar sua empatia para trabalhar na hora de descobrir o que poderia ser interpretado como valor pelo outro, antes mesmo de oferecer sua dádiva, agora é hora de usar de empatia para medir os resultados. Tentar sentir o que o outro sentiu.

P. Que se resume em gratidão e desejo de reciprocidade, ou tem mais alguma coisa?

Tem sim, e é aí que a dádiva fica ainda mais interessante; é aí que começa o verdadeiro networking. O ato de dar ou fazer algo por alguém vai contra os nossos instintos de sobrevivência. Vai contra a lei do mais forte que subjuga o mais fraco tirando dele, não dando. Só que quando você percebe que pessoas generosas vivem mais de bem com a vida, e pessoas mesquinhas não, você quer descobrir que existe por trás da generosidade. Quando você é o beneficiário de uma dádiva, pode acabar contaminado pelo princípio da dádiva; vai querer descobrir o que é moveu a outra pessoa e acabará também fazendo algo por alguém para sentir o mesmo.

P. Então a dádiva pode gerar no benfeitor uma sensação de superioridade, de controle e poder sobre o beneficiado.

Sim, porque o rio sempre corre de cima para baixo. O próprio desejo de ajudar alguém pode brotar de uma necessidade de vanglória, de poder se gabar de ter ajudado essa ou aquela pessoa. Mas vamos nos concentrar nos resultados, e não nos motivos que levam a eles. É importante entender que a dádiva pode gerar uma reação em cadeia e criar na pessoa que recebe não apenas sentimento de dívida e reciprocidade, mas também de responsabilidade de fazer o mesmo por uma terceira pessoa.

P. Mas até aqui me parece mais uma cadeia linear de dádivas. Quando é que isso começa a funcionar como um networking, como uma rede de relacionamentos, e não de cima para baixo?

Quando aquele que é, digamos, o tataraneto do processo que você iniciou decide fazer de você o beneficiário de uma dádiva. Fechou o círculo. Agora você, que iniciou o processo da dádiva, passou a ser devedor de alguém, no sentido de sentir gratidão, não de ter de pagar, e se sentirá estimulado a ser novamente benfeitor de alguém, iniciando um novo ciclo, talvez em nova direção.

P. Em outras palavras eu fui vítima do meu próprio feitiço.

O verdadeiro networking funciona assim, sempre com alguém dando e alguém recebendo. Mas nem todos mantêm a corrente, e isso geralmente acontece naqueles elos que não entendem que a dádiva funciona como um bumerangue, é moeda circulante. É por isso que em tempos de crise os governos estimulam o crédito e pedem que as pessoas comprem. O represamento leva à estagnação.

P. Dê um exemplo prático do princípio da dádiva entre um fornecedor e um cliente.

Ok, digamos que você ouviu tudo isso e decidiu ligar hoje mesmo para uma empresa de brindes e encomendar uma porção de coisas com sua marca estampada nelas. Amanhã você aparece no cliente e despeja uma tonelada de brindes na mesa dele. Pode até funcionar, mas não é disso que estou falando. O princípio da dádiva não inclui brindes.

P. Não?! Mas não é dado?

Não é a mesma coisa; falta ao brinde aquele vínculo emocional que a verdadeira dádiva tem. Uma dádiva nem precisa ser algo tangível. Pode ser um favor ou um simples gesto. Pode ser conseguir a figurinha que faltava no álbum do filho de seu cliente. O brinde tem uma conotação comercial, tem uma marca colada nele, dá a impressão que você quer que seu cliente faça propaganda para você. A propriedade do brinde nunca é transferida totalmente para o cliente, porque sua marca continua lá.

P. Mas isso não faz ele se lembrar de mim na hora de comprar?

Pode fazer, mas não tem o poder da dádiva. Imagine que eu sou seu cliente e, ao invés de me dar uma caneta com a sua marca, você traz de suas férias em Recife um daqueles lápis baratos vendidos em feiras de artesanato, com a palavra "Recife" entalhada na madeira. Aí você me entrega o lápis e diz: "Estive em Recife e me lembrei de você".

O lápis não tem o seu nome, não tem a sua marca, não traz qualquer indicação de origem, mas eu nunca mais vou me esquecer de quem deu. Você não tinha obrigação de pensar em mim em suas férias e, se fez isso, fico constrangido a dar preferência a você na hora de decidir fechar um negócio. Fica a sensação de que eu lhe devo uma, e mesmo que eu faça algo em troca, um gesto assim cria uma dívida impossível de ser totalmente quitada. Se você me pedir qualquer coisa eu me sentirei constrangido a atender o seu pedido.

P. Até comprar rifa?

Até comprar rifa e rir de suas piadas.



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O Espírito da Dádiva - Jacques T. Godbout

Nem só o interesse, o desejo de poder e a coerção pública regem as relações entre as pessoas. Opondo-se à visão utilitarista dominante nas interpretações da história e do jogo social, este livro mostra que o espírito da dádiva não se manifesta só em ocasiões como o Natal, ou em brechas da moderna sociedade liberal, mas o tempo todo e em toda a parte: nas organizações, no mercado de arte, nas reuniões dos Alcóolicos Anônimos, nas doações de sangue e de órgãos.

Na perspectiva deste livro, a dádiva, assim como o mercado e o Estado, forma um sistema de circulação de bens e prestação de serviços que serve, antes de mais nada, para criar vínculos sociais, e a sedução da dádiva tem tanto poder quanto a do ganho - portanto, é tão importante elucidar suas regras quanto conhecer as leis do mercado ou da burocracia para compreender a sociedade moderna.

Nesta obra pluridisciplinar, a linguagem utilizada é clara e evita o ´calão´ dos especialistas. Alimentando com inquéritos sobre o "terreno originais", e por uma análise crítica aprofundada da literatura existente este livro, apaixonará o grande público que espera conhecer os mistérios da dádiva, e os investigadores em ciências sociais que, aqui, descobrirão estimulantes perspectivas.

Editora: Instituto Piaget
Autor: JACQUES T. GODBOUT
ISBN: 9728329466
Origem: Importado
Ano: 1997
Edição: 1
Número de páginas: 335
Acabamento: Brochura
Formato: Médio


E a gorjeta, doutor?

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