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Dulcinéia, musa minha e sua

Sobre minha mesa, dois belíssimos volumes de "Don Quixote de La Mancha", de Miguel de Cervantes Saavedra, me fitam. A edição que herdei de meu pai é de 1955, ano de meu nascimento, e traz ilustrações de Gustavo Doré. Que magia estes livros contêm? O que tornou Don Quixote um dos livros mais lidos do mundo?







O fato de ter sido concebido em um cárcere, talvez. Por ser a aventura de um louco em busca de glória? Hummm... não sei... Quem sabe o que realmente nos seduz é saber que ele, um perdedor nato e fraco, se acha um campeão, o mais valente, o mais fidalgo? Pode ser. Gostamos de fracos vencedores, porque no fundo somos assim. Só falta vencer. Mas o que seria de um cavaleiro sem inspiração? É aí que entra Dulcinéia, a musa inspiradora de Don Quixote. É aí que entra minha homenagem às mulheres, as musas inspiradoras dos homens. Mas quem é Dulcinéia  Quixote, por gentileza, poderia descrevê-la? Você a conhece melhor do que eu.

"O seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos tributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elísios  suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos, sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjeturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las."

Pausa para você dar aquele suspiro e desarrepiar]

A verdade é que todo homem precisa de uma Dulcinéia, de uma musa, de uma inspiração. De alguém por quem valha a pena lutar até contra o vento dos moinhos. Uma amada, uma esposa, uma mãe, uma irmã — você elege a sua. Sem a sua Dulcinéia o homem é Romeu sem Julieta, queijo sem goiabada, azeitona sem sal.

Dulcinéia era a projeção que Don Quixote fazia de Aldonça Lourenço, uma campesina de Toboso. A Dulcinéia dos sonhos ele nunca encontra no livro, porque ela mora em sua mente e coração. A Dulcinéia de cada um é aquela que envelhece e você não vê as rugas; que ralha e você ouve um canto; que vira para o outro lado e dorme, e você enxerga um anjo. Ideal, virtual, uma projeção toda sua da real. Pois ela é perfeita, nunca menos do que a imagem que você vê. É por essa que o amor nunca arrefece.

Porém, Quixote chora, por achar que Dulcinéia o despreza: "Ó princesa Dulcinéia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizeste em despedir-me, e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós."

Pelo amor de Dulcinéia, Don Quixote seria capaz de atravessar desertos, escalar montanhas, cruzar os mares, dar a volta ao mundo, enfrentar perigos e abater inimigos. Mas no livro ela não fica com ele. Talvez por saber que ele nunca iria parar em casa.


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Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha, O - Vol. 1

MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA

Considerado o primeiro romance moderno, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha (1605) ganha finalmente uma tradução em português à altura da riqueza do original. Nesta obra, Miguel de Cervantes conta a história de um dono de terras espanhol que, de tanto ler romances de cavalaria, enlouquece e sai pelo mundo a combater as injustiças e auxiliar os desamparados, ao lado de Sancho Pança, seu escudeiro, uma das mais perfeitas representações do espírito popular. Esta edição bilíngüe português-espanhol é acompanhada de notas especialmente preparadas para o leitor brasileiro a partir das mais atualizadas edições do texto na Espanha, que esclarecem as centenas de personagens históricos citados, as alusões à política e ao contexto social da época, proporcionando uma leitura inteiramente renovada da obra magistral de Cervantes.
"Num lugarejo em La Mancha, cujo nome ora me escapa, não há muito que viveu um fidalgo desses com lança guardada, adarga antiga, rocim magro e cão bom caçador. Um cozido com mais vaca do que carneiro, salpicão no mais das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas-feiras e algum pombinho por luxo aos domingos consumiam três quartos de sua renda. O resto ia-se num saio do melhor pano e uns calções de veludo para os dias santos, com seus pantufos do mesmo, honrando-se nos da semana com sua mais fina burelina. Beirava o nosso fidalgo a casa dos cinqüenta. Era de compleição rija, parco de carnes, rosto enxuto, grande madrugador e amigo da caça. Há quem diga que tinha por sobrenome 'Quijada', ou 'Quesada'.



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