Durante alguns anos, e a convite de uma instituição de ensino, lecionei Administração Mercadológica em seus cursos de Administração de Empresas. Fui igualmente convidado para lecionar em um MBA em uma universidade e a dar palestras em eventos acadêmicos em todo o país, sempre com base em minha experiência de mercado, no conhecimento autodidata, em minhas traduções de livros acadêmicos nas áreas de Marketing e Administração, além de meus livros e artigos publicados desde 2001. Um belo dia em 2005 recebi da instituição onde lecionava um comunicado: o Ministério da Educação e Cultura estaria fazendo um pente fino na qualificação dos professores universitários. Foi então que deixei de lecionar ali. Para mim aquilo veio até em boa hora, pois o volume de viagens e palestras já começava a pesar, motivo pelo qual acabei deixando também de atuar em consultoria. Na época escrevi uma crônica de um telefonema imaginário que transcrevo aqui.
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Conversa ao Telefone no Dia do Professor - Mario Persona
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Construindo pontes para o aprendizado
Quando meu filho era pequeno, entrou para uma escola onde a professora era apenas dois anos mais velha. Aos quatro anos de idade ele já estava alfabetizado e qualquer passeio de carro pelas avenidas era acompanhado de uma locução vinda do banco de trás que dava voz aos outdoors. Era ele lendo as propagandas, do jeito que a irmã ensinou e a curiosidade incentivou.
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Rubens Alves
Conversa de telefone
— Alô, gostaria de falar com algum especialista do ensino.
— Sim, pode falar comigo.
— Seu nome?
— Máximo Escolástico Cursino.
— Ok, seu Máximo Esco... Xiii... já esqueci...
— Pode me chamar pelo apelido, Mec.
— Está bem, seu Mec, o assunto é o seguinte. Eu lecionava marketing para uma turma de Administração de Empresas e agora...
— Não vai poder mais lecionar. É isso?
— Puxa, você está por dentro mesmo, hein? É verdade o que estão dizendo por aí?
— É. Você não é administrador formado e registrado no conselho?
— Não, minha formação não é em administração. Arquitetura e urbanismo, tipo descobrir necessidades das pessoas e dos habitantes das cidades, criar ambientes, ter visão espacial, coisas assim... Mas minha atuação profissional é em marketing, faço palestras, leciono em MBA, tenho alguns livros publicados, artigos...
— Não importa. O que vale é ser administrador se quiser ensinar administrador em cursos de graduação. Cabe ao administrador exercer o magistério das matérias técnicas dos campos da administração nos cursos de graduação.
— Rapaz, você sabe de cor, hein? Todas as disciplinas?
— As profissionalizantes, relacionadas com as áreas específicas e que envolvam teorias da administração e das organizações e a administração de recursos humanos, mercadologia e marketing, materiais, produção e logística, administração financeira e orçamentária, sistemas de informações, planejamento estratégico e serviços.
— Entendi... isso ainda deixa espaço para muitas disciplinas, né? E se tiver experiência de mercado, puder trazer conhecimento de primeira mão de como é no mundo real...
— A norma é clara.
— É, a norma... Humm... Estava pensando em convidar alguns conhecidos para lecionar em meu lugar, mas não sei não...
— Quem são?
— Bem, tem o Peter, sabe qual é? O sobrenome é Drucker, que escreveu um montão de livros de administração, muitos deles usados nas faculdades.
— É administrador de empresas?
— Não, é advogado e estatístico.
— Não pode.
— Hummm... tenho outros aqui numa lista que peguei na Internet, não tenho certeza, mas acho que nenhum deles está qualificado para ensinar em nossas faculdades de administração. Seus livros são usados nas faculdades de administração...
— Sem diploma de administrador em uma instituição reconhecida, nada feito.
— Deixe-me ver... Antonio Hermírio é brasileiro, mas é engenheiro civil... outros grandes empresários que conheço, mas nenhum... pensei ainda no Bill Gates, mas nem faculdade tem.
— Sabe por que foi tomada essa decisão?
— Não, mas gostaria de saber.
— Para melhorar a qualidade do ensino nas faculdades de administração. Apenas administradores formados têm capacidade e competência para ensinar disciplinas que são críticas para a boa administração de uma empresa.
— Entendi... então o Bill não serve. Vou ter que pensar em outro.
— Você compreendeu bem a razão?
— Claro, se você diz que isso vai melhorar a qualidade dos profissionais que sairão de nossas faculdades, quem sou eu para contestar? Além disso reserva mercado de trabalho para administradores que não poderiam lecionar se o critério fosse apenas de experiência, né? Só estou pensando em quem poderia indicar para lecionar marketing em meu lugar... Acho que só resta eu indicar um ex-aluno meu. Pode ser?
— Pode, desde que seja graduado.
— Então está resolvido! Vou indicar um ex-aluno que acabou de se formar. Rapaz inteligente, comunicativo, gente boa.
— Tenho certeza de que ele tem muito a agregar para a melhoria do ensino.
— Certamente. Você está coberto de razão. Isso deve dar prestígio à profissão. E estou até pensando em voltar a lecionar daqui a algum tempo. Será que se eu prestar vestibular e cursar administração posso voltar a lecionar?
— Claro, nada impede, desde que tenha também o registro no conselho.
— Ótimo! Então é isso que vou fazer! Acho que consigo eliminar algumas disciplinas pelo curso que fiz quando estudei. Daqui a quatro anos eu... Êpa! Surgiu uma dúvida. Posso eliminar marketing, já que era eu o professor?
— Não, se não cursou a disciplina quando esteve na faculdade.
— Não, não cursei.
— Então vai precisar fazer a disciplina, como todos os alunos.
— Quer dizer que vou ser aluno de meu aluno e ele vai ser professor de seu professor? Quando eu tiver dúvidas na aula, devo perguntar para quem? Para ele ou para mim?
— Não entendi.
— É, acho que você não vai conseguir entender. A situação vai ser estranha e perigosa. Já pensou se meu aluno me reprova? Como poderia me considerar inapto, se o que sabe é o que ensinei a ele?
— Continuo sem entender...
— E nem esperaria que entendesse, estou pensando em voz alta e... hummm... acho que não, não vou cursar administração não.
— Por que?
— Porque não confio na qualidade do ensino. Veja bem, vou ser aluno de meu aluno para aprender o que ensinei a ele, não é?
— É.
— Que confiança posso ter no que vou aprender, se ele aprendeu com quem não tinha capacidade para ensinar? Vamos deixar assim. Vou continuar com minhas outras atividades. Obrigado pelas informações e pela paciência em ouvir.
— Não tem de quê.
— Até logo.
— Até logo.
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— Sim, pode falar comigo.
— Seu nome?
— Máximo Escolástico Cursino.
— Ok, seu Máximo Esco... Xiii... já esqueci...
— Pode me chamar pelo apelido, Mec.
— Está bem, seu Mec, o assunto é o seguinte. Eu lecionava marketing para uma turma de Administração de Empresas e agora...
— Não vai poder mais lecionar. É isso?
— Puxa, você está por dentro mesmo, hein? É verdade o que estão dizendo por aí?
— É. Você não é administrador formado e registrado no conselho?
— Não, minha formação não é em administração. Arquitetura e urbanismo, tipo descobrir necessidades das pessoas e dos habitantes das cidades, criar ambientes, ter visão espacial, coisas assim... Mas minha atuação profissional é em marketing, faço palestras, leciono em MBA, tenho alguns livros publicados, artigos...
— Não importa. O que vale é ser administrador se quiser ensinar administrador em cursos de graduação. Cabe ao administrador exercer o magistério das matérias técnicas dos campos da administração nos cursos de graduação.
— Rapaz, você sabe de cor, hein? Todas as disciplinas?
— As profissionalizantes, relacionadas com as áreas específicas e que envolvam teorias da administração e das organizações e a administração de recursos humanos, mercadologia e marketing, materiais, produção e logística, administração financeira e orçamentária, sistemas de informações, planejamento estratégico e serviços.
— Entendi... isso ainda deixa espaço para muitas disciplinas, né? E se tiver experiência de mercado, puder trazer conhecimento de primeira mão de como é no mundo real...
— A norma é clara.
— É, a norma... Humm... Estava pensando em convidar alguns conhecidos para lecionar em meu lugar, mas não sei não...
— Quem são?
— Bem, tem o Peter, sabe qual é? O sobrenome é Drucker, que escreveu um montão de livros de administração, muitos deles usados nas faculdades.
— É administrador de empresas?
— Não, é advogado e estatístico.
— Não pode.
— Hummm... tenho outros aqui numa lista que peguei na Internet, não tenho certeza, mas acho que nenhum deles está qualificado para ensinar em nossas faculdades de administração. Seus livros são usados nas faculdades de administração...
— Sem diploma de administrador em uma instituição reconhecida, nada feito.
— Deixe-me ver... Antonio Hermírio é brasileiro, mas é engenheiro civil... outros grandes empresários que conheço, mas nenhum... pensei ainda no Bill Gates, mas nem faculdade tem.
— Sabe por que foi tomada essa decisão?
— Não, mas gostaria de saber.
— Para melhorar a qualidade do ensino nas faculdades de administração. Apenas administradores formados têm capacidade e competência para ensinar disciplinas que são críticas para a boa administração de uma empresa.
— Entendi... então o Bill não serve. Vou ter que pensar em outro.
— Você compreendeu bem a razão?
— Claro, se você diz que isso vai melhorar a qualidade dos profissionais que sairão de nossas faculdades, quem sou eu para contestar? Além disso reserva mercado de trabalho para administradores que não poderiam lecionar se o critério fosse apenas de experiência, né? Só estou pensando em quem poderia indicar para lecionar marketing em meu lugar... Acho que só resta eu indicar um ex-aluno meu. Pode ser?
— Pode, desde que seja graduado.
— Então está resolvido! Vou indicar um ex-aluno que acabou de se formar. Rapaz inteligente, comunicativo, gente boa.
— Tenho certeza de que ele tem muito a agregar para a melhoria do ensino.
— Certamente. Você está coberto de razão. Isso deve dar prestígio à profissão. E estou até pensando em voltar a lecionar daqui a algum tempo. Será que se eu prestar vestibular e cursar administração posso voltar a lecionar?
— Claro, nada impede, desde que tenha também o registro no conselho.
— Ótimo! Então é isso que vou fazer! Acho que consigo eliminar algumas disciplinas pelo curso que fiz quando estudei. Daqui a quatro anos eu... Êpa! Surgiu uma dúvida. Posso eliminar marketing, já que era eu o professor?
— Não, se não cursou a disciplina quando esteve na faculdade.
— Não, não cursei.
— Então vai precisar fazer a disciplina, como todos os alunos.
— Quer dizer que vou ser aluno de meu aluno e ele vai ser professor de seu professor? Quando eu tiver dúvidas na aula, devo perguntar para quem? Para ele ou para mim?
— Não entendi.
— É, acho que você não vai conseguir entender. A situação vai ser estranha e perigosa. Já pensou se meu aluno me reprova? Como poderia me considerar inapto, se o que sabe é o que ensinei a ele?
— Continuo sem entender...
— E nem esperaria que entendesse, estou pensando em voz alta e... hummm... acho que não, não vou cursar administração não.
— Por que?
— Porque não confio na qualidade do ensino. Veja bem, vou ser aluno de meu aluno para aprender o que ensinei a ele, não é?
— É.
— Que confiança posso ter no que vou aprender, se ele aprendeu com quem não tinha capacidade para ensinar? Vamos deixar assim. Vou continuar com minhas outras atividades. Obrigado pelas informações e pela paciência em ouvir.
— Não tem de quê.
— Até logo.
— Até logo.
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| Monge e o Executivo: uma História sobre a Essência da Liderança, O JAMES C. HUNTER Você está convidado a juntar-se a um grupo que durante uma semana vai estudar com um dos maiores especialistas em liderança dos Estados Unidos. Leonard Hoffman, um famoso empresário que abandonou sua brilhante carreira para se tornar monge em um mosteiro beneditino, é o personagem central desta envolvente história criada por James C. Hunter para ensinar de forma clara e agradável os princípios fundamentais dos verdadeiros líderes. Se você tem dificuldade em fazer com que sua equipe dê o melhor de si no trabalho e gostaria de se relacionar melhor com sua família e seus amigos, vai encontrar neste livro personagens, idéias e discussões que vão abrir um novo horizonte em sua forma de lidar com os outros. É impossível ler este livro sem sair transformado. O Monge e o Executivo é, sobretudo, uma lição sobre como se tornar uma pessoa melhor. | |
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Criatividade no ensino
What is this, what is that?
It’s a table, it’s a chair;
What is that Mister Payne?
It’s a big airplane.
What is that, what is this?
It’s a book, it’s a kiss;
What is that silver chain?
It’s a subway train.
Era assim que eu começava minhas aulas de inglês no Colégio Estadual Moisés Nunes Bandeira, em Alto Paraíso, Goiás. O ano? 1979. A razão de estar ali? Mudar o mundo. Era só isso que me propunha a fazer quando mal tinha completado 24 anos de vida, menos da metade dos que já colecionei até aqui.
Uma espécie de Projeto Rondon privado e acalentado fizera com que eu engavetasse um diploma de arquiteto ainda fresco — o diploma — e partisse paitrocinado para o sertão de Goiás numa Kombi repleta de tralhas e sonhos. Lá eu aprenderia que o mundo é muito grande para ser mudado, mas as pessoas não. Mesmo sendo maiores que o mundo.
Meu primeiro desafio era fazer aquela garotada — a maioria nascida e criada virgem de TV — aprender a falar Inglês. Além de soletrar Matemática, viajar de Ciências e discutir Organização Social e Política Brasileira, quando ainda era proibido colocá-la em discussão no ano em que Geisel saía e Figueiredo entrava.
Adotei um método audiovisual — eu cantava ao som de meu violão de doze cordas enquanto duas dúzias de olhos me viam gingar — após perceber que nada no mundo iria fazê-los acreditar que seria preciso aprender inglês. Se aprenderam eu não sei, mas poderia apostar que hoje, mais de vinte anos depois, deve ter algum pai ou mãe lá no meio de Goiás cantando "What is this, what is that?" para seu filho dormir.
A receita da aderência da mensagem ficava por conta dos ingredientes que inconscientemente eu usava naquele método improvisado: idealismo, bom-humor, ousadia e paixão. As notas vibrando no ar tinham o efeito de destruir barreiras e despertar o apetite da garotada pelo novo. Sim, eles cantavam juntos. E como cantavam!
Só muito tempo depois eu iria aprender o poder da criatividade na educação — na demolição dos feudos de resistência psicológica criados por nada menos que a própria educação. Pablo Picasso dizia que toda criação começa com um ato de destruição, mas é o professor vivido por Robin Williams no filme "Sociedade dos Poetas Mortos" quem pincela isso na tela e em cores. Lá os alunos da Welton Academy são incentivados a arrancar as páginas quadradas de um livro retangular e a subir nas mesas em busca de uma visão alternativa do lugar.
Em um e-book intitulado "Sly as a Fox", Mark L. Fox, que deve ser parente do título, informa que "A criatividade de uma criança diminui 90% dos 5 aos 7 anos. Aos 40 sua criatividade equivale a apenas 2% da que tinha". Se ele disse isso com base em alguma pesquisa científica ou em sua criatividade não vem ao caso aqui. O que importa saber é que a educação convencional vai entupindo nossa capacidade de criar por estimular demasiadamente a razão.
Na escola aprendemos que saber responder é mais importante do que saber perguntar. Que errar é errado, não aprendizado. Que quem copia não aprende. Que estudar é para se fazer sozinho. Que concentração é importante e a interrupção, irritante. Que devemos ser especialistas. Que tira a melhor nota quem souber escrever. Que a precisão é a deusa da educação. Só depois — muito depois — vamos descobrir que fora da redoma acadêmica as coisas nem sempre são assim.
Já que estamos falando de criatividade, não é com um mundo de dados precisos que precisamos lidar quando saímos da escola, mas com um oceano de ambigüidades. Onde somos obrigados a ser generalistas o suficiente para sobreviver às mudanças, e onde não é quem escreve bem que tira a melhor nota, mas quem fala melhor. Ou quem copia.
Espere, não arranque os cabelos ainda. Não falo da cópia copy-paste, mas da cópia que empresta o criado de alguém para ajudar a dar a primeira volta na roda de uma nova criação. Numa cena do filme "Encontrando Forrester" — aquele em que James Bond recebe a difícil missão de ser escritor — Sean "Forrester" Connery ensina seu pupilo a escapar da cela que aterroriza todo escritor: a folha em branco. O primeiro parágrafo é copiado apenas para estimular Tico e Teco a encontrarem seu próprio caminho numa aventura toda original.
Ambos — Tico e Teco — trabalham nos resultados, mas não é Tico, o advogado, o criativo. Tico mora na toca esquerda de nossos hemisférios cerebrais, e cuida de tudo o que tem razão. Ele é viciado em ordem, análise e literalidade. Seu televisor é preto e branco, seus rascunhos são grifados a régua, detesta interrupções e não sai de sua agenda nem para morrer.
Na toca ao lado mora Teco, o artista. Ele descobre o contexto, vive em emoção e é hábil na síntese. Teco não se prende a padrões e nem tem TV — o que tem é uma bolha, dentro da qual flutua enquanto assiste a tudo de sua poltrona giroscópica numa tela multidimensional com som polifônico. Teco — pode até chamá-lo de Teté se preferir — é intuitivo e faz mais de uma coisa ao mesmo tempo, todas elas novas. Não tem hora nem agenda, vê nas interrupções oportunidades e só viaja de Hellman's Airlines.
Teco, o artista, só tem um problema. Tudo o que cria e faz só sai da árvore neurológica passando pela toca de Tico, o advogado. Este é o filtro que transforma a criação de Teco em comunicação legível e inteligível para os outros Ticos e Tecos que habitam a floresta da humanidade. Muita criatividade é filtrada aí, na toca da razão, onde não há lugar para o devaneio, o sonho ou a imprecisão.
O mesmo acontece no sentido inverso. Toda informação que chega à árvore de nossos esquilos cerebrais passa primeiro pelo dr. Tico. Ele verifica tudo sentado em sua escrivaninha iluminada pela lâmpada da razão, antes de destinar o que sobrar — não muito, diga-se de passagem — aos arquivos memoriais. Enquanto isso Teco ouve música, se encanta com poesia ou mergulha nas cores de uma obra de arte. Coisas sem qualquer importância ou significado para o dr. Tico.
Numa classe habituada às rudezas da vida no campo e à falta de perspectivas que ultrapassassem seu curral e arraial, aprender inglês nada tinha de lógico ou racional. Era caso de expulsão sumária da mente, perpetrada pelo dr. Tico, por absoluta falta de lógica. Pois era aí que eu entrava em campo para driblar o doutor. Com criatividade, arte e emoção. Tudo o que vem revestido de arte, rima e compasso entra pela porta ao lado do escrutínio da razão.
Em seu livro "A Whole New Mind - Moving from the Information Age to the Conceptual Age" Dan Pink escreve: "A era do predomínio do 'hemisfério esquerdo' — e a Era da Informação que este criou — está dando lugar a um novo mundo onde as qualidades do 'hemisfério direito' — criatividade, empatia, significado — governarão". E completa: "O MFA", ou Master of Fine Arts, "é o novo MBA", ao apontar para um mundo onde as pessoas buscarão cada vez mais significado, conceitos e experiências.
É claro que eu não sabia tudo isso na minha juventude, quando cantava e dançava despreocupadamente para aquelas duas dúzias de alunos com meu violão de doze cordas preso a uma alça colorida pendurada no pescoço:
What is that, what is this?
It's a book, it's a kiss;
What is that silver chain?
It's a subway train.
Mas lá eu entendi que nem tudo podia ser só festa e que Tico e Teco precisariam trabalhar em parceria se quisessem ter uma criatividade operacional. Vi isso quando um aluno perguntou:
— Professor, o que é subway train?
Expliquei que subway train significa metrô, um trem que anda por túneis sob a terra. O silêncio que se seguiu mostrou que ainda faltava algo. Então uma aluna sincera e ousada levantou a mão. Sua pergunta me fez ver o quanto de trabalho de base eu ainda precisaria fazer naquelas mentes que nunca tinham estado em paragens abaixo daquele Alto Paraíso:
— Professor, o que é trem?
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It’s a table, it’s a chair;
What is that Mister Payne?
It’s a big airplane.
What is that, what is this?
It’s a book, it’s a kiss;
What is that silver chain?
It’s a subway train.
Era assim que eu começava minhas aulas de inglês no Colégio Estadual Moisés Nunes Bandeira, em Alto Paraíso, Goiás. O ano? 1979. A razão de estar ali? Mudar o mundo. Era só isso que me propunha a fazer quando mal tinha completado 24 anos de vida, menos da metade dos que já colecionei até aqui.
Uma espécie de Projeto Rondon privado e acalentado fizera com que eu engavetasse um diploma de arquiteto ainda fresco — o diploma — e partisse paitrocinado para o sertão de Goiás numa Kombi repleta de tralhas e sonhos. Lá eu aprenderia que o mundo é muito grande para ser mudado, mas as pessoas não. Mesmo sendo maiores que o mundo.
Meu primeiro desafio era fazer aquela garotada — a maioria nascida e criada virgem de TV — aprender a falar Inglês. Além de soletrar Matemática, viajar de Ciências e discutir Organização Social e Política Brasileira, quando ainda era proibido colocá-la em discussão no ano em que Geisel saía e Figueiredo entrava.
Adotei um método audiovisual — eu cantava ao som de meu violão de doze cordas enquanto duas dúzias de olhos me viam gingar — após perceber que nada no mundo iria fazê-los acreditar que seria preciso aprender inglês. Se aprenderam eu não sei, mas poderia apostar que hoje, mais de vinte anos depois, deve ter algum pai ou mãe lá no meio de Goiás cantando "What is this, what is that?" para seu filho dormir.
A receita da aderência da mensagem ficava por conta dos ingredientes que inconscientemente eu usava naquele método improvisado: idealismo, bom-humor, ousadia e paixão. As notas vibrando no ar tinham o efeito de destruir barreiras e despertar o apetite da garotada pelo novo. Sim, eles cantavam juntos. E como cantavam!
Só muito tempo depois eu iria aprender o poder da criatividade na educação — na demolição dos feudos de resistência psicológica criados por nada menos que a própria educação. Pablo Picasso dizia que toda criação começa com um ato de destruição, mas é o professor vivido por Robin Williams no filme "Sociedade dos Poetas Mortos" quem pincela isso na tela e em cores. Lá os alunos da Welton Academy são incentivados a arrancar as páginas quadradas de um livro retangular e a subir nas mesas em busca de uma visão alternativa do lugar.
Em um e-book intitulado "Sly as a Fox", Mark L. Fox, que deve ser parente do título, informa que "A criatividade de uma criança diminui 90% dos 5 aos 7 anos. Aos 40 sua criatividade equivale a apenas 2% da que tinha". Se ele disse isso com base em alguma pesquisa científica ou em sua criatividade não vem ao caso aqui. O que importa saber é que a educação convencional vai entupindo nossa capacidade de criar por estimular demasiadamente a razão.
Na escola aprendemos que saber responder é mais importante do que saber perguntar. Que errar é errado, não aprendizado. Que quem copia não aprende. Que estudar é para se fazer sozinho. Que concentração é importante e a interrupção, irritante. Que devemos ser especialistas. Que tira a melhor nota quem souber escrever. Que a precisão é a deusa da educação. Só depois — muito depois — vamos descobrir que fora da redoma acadêmica as coisas nem sempre são assim.
Já que estamos falando de criatividade, não é com um mundo de dados precisos que precisamos lidar quando saímos da escola, mas com um oceano de ambigüidades. Onde somos obrigados a ser generalistas o suficiente para sobreviver às mudanças, e onde não é quem escreve bem que tira a melhor nota, mas quem fala melhor. Ou quem copia.
Espere, não arranque os cabelos ainda. Não falo da cópia copy-paste, mas da cópia que empresta o criado de alguém para ajudar a dar a primeira volta na roda de uma nova criação. Numa cena do filme "Encontrando Forrester" — aquele em que James Bond recebe a difícil missão de ser escritor — Sean "Forrester" Connery ensina seu pupilo a escapar da cela que aterroriza todo escritor: a folha em branco. O primeiro parágrafo é copiado apenas para estimular Tico e Teco a encontrarem seu próprio caminho numa aventura toda original.
Ambos — Tico e Teco — trabalham nos resultados, mas não é Tico, o advogado, o criativo. Tico mora na toca esquerda de nossos hemisférios cerebrais, e cuida de tudo o que tem razão. Ele é viciado em ordem, análise e literalidade. Seu televisor é preto e branco, seus rascunhos são grifados a régua, detesta interrupções e não sai de sua agenda nem para morrer.
Na toca ao lado mora Teco, o artista. Ele descobre o contexto, vive em emoção e é hábil na síntese. Teco não se prende a padrões e nem tem TV — o que tem é uma bolha, dentro da qual flutua enquanto assiste a tudo de sua poltrona giroscópica numa tela multidimensional com som polifônico. Teco — pode até chamá-lo de Teté se preferir — é intuitivo e faz mais de uma coisa ao mesmo tempo, todas elas novas. Não tem hora nem agenda, vê nas interrupções oportunidades e só viaja de Hellman's Airlines.
Teco, o artista, só tem um problema. Tudo o que cria e faz só sai da árvore neurológica passando pela toca de Tico, o advogado. Este é o filtro que transforma a criação de Teco em comunicação legível e inteligível para os outros Ticos e Tecos que habitam a floresta da humanidade. Muita criatividade é filtrada aí, na toca da razão, onde não há lugar para o devaneio, o sonho ou a imprecisão.
O mesmo acontece no sentido inverso. Toda informação que chega à árvore de nossos esquilos cerebrais passa primeiro pelo dr. Tico. Ele verifica tudo sentado em sua escrivaninha iluminada pela lâmpada da razão, antes de destinar o que sobrar — não muito, diga-se de passagem — aos arquivos memoriais. Enquanto isso Teco ouve música, se encanta com poesia ou mergulha nas cores de uma obra de arte. Coisas sem qualquer importância ou significado para o dr. Tico.
Numa classe habituada às rudezas da vida no campo e à falta de perspectivas que ultrapassassem seu curral e arraial, aprender inglês nada tinha de lógico ou racional. Era caso de expulsão sumária da mente, perpetrada pelo dr. Tico, por absoluta falta de lógica. Pois era aí que eu entrava em campo para driblar o doutor. Com criatividade, arte e emoção. Tudo o que vem revestido de arte, rima e compasso entra pela porta ao lado do escrutínio da razão.
Em seu livro "A Whole New Mind - Moving from the Information Age to the Conceptual Age" Dan Pink escreve: "A era do predomínio do 'hemisfério esquerdo' — e a Era da Informação que este criou — está dando lugar a um novo mundo onde as qualidades do 'hemisfério direito' — criatividade, empatia, significado — governarão". E completa: "O MFA", ou Master of Fine Arts, "é o novo MBA", ao apontar para um mundo onde as pessoas buscarão cada vez mais significado, conceitos e experiências.
É claro que eu não sabia tudo isso na minha juventude, quando cantava e dançava despreocupadamente para aquelas duas dúzias de alunos com meu violão de doze cordas preso a uma alça colorida pendurada no pescoço:
What is that, what is this?
It's a book, it's a kiss;
What is that silver chain?
It's a subway train.
Mas lá eu entendi que nem tudo podia ser só festa e que Tico e Teco precisariam trabalhar em parceria se quisessem ter uma criatividade operacional. Vi isso quando um aluno perguntou:
— Professor, o que é subway train?
Expliquei que subway train significa metrô, um trem que anda por túneis sob a terra. O silêncio que se seguiu mostrou que ainda faltava algo. Então uma aluna sincera e ousada levantou a mão. Sua pergunta me fez ver o quanto de trabalho de base eu ainda precisaria fazer naquelas mentes que nunca tinham estado em paragens abaixo daquele Alto Paraíso:
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| Cultura-Poder-Comunicação e Imagem: Fundamentos da Nova Empresa - GAUDENCIO TORQUATO Questões relativas a cultura, poder, comunicação e imagem fundamentam as bases da empresa moderna. Analisar essas questões, compreender e avaliar sua natureza e suas implicações no desenvolvimento organizacional são tarefas da maior importância para os profissionais que desejam estar em sintonia com a modernidade. | |
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